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PADARIA 24 HORAS
Um casal de pés sujos, pretos na sola, pés de quem se atreve a andar descalço pelas ruas ou de quem passou o dia usando chinelos de dedos pra fora na cidade. Parece que tinham saído dos anos setenta - não fosse a pele nova do garoto -, devem ter seus trinta e poucos ou tantos anos, conversam, fazem as pazes. São do tipo que faz yoga, bom alongamento e despreocupados de etiquetas de comportamento. Ela de vestido florido, sentada, um joelho dobrado contra o corpo, calcinha clara à mostra e a outra perna estendida sobre outra cadeira. Olham-se nos olhos, pensam assunto, ele senta-se como um jovem pensador – ‘tipo’ jovens sensíveis que soam pensantes – olhar reflexivo, barba repleta.
Num ímpeto, de repente é macho, beija-a na boca, voraz, levanta-se para acariciá-la. Nesse meio tempo (entre a frase anterior e a ação corajosa) ele tinha ido telefonar, ainda descalço despojado, no orelhão ali em frente - enquanto ela ponderava se trepava ou não trepava, sobrancelhas erguidas encimando olhos bêbados. Aposto que ele não mora só e tenta providenciar uma cama de remédio. Então, voltou o moço-homem cheio de si.
Novo ângulo, agora ele está sentado de pernas cruzadas, lado a lado voltam a conversar sobre o assunto sério depois do telefonema. Ela tem os olhos entorpecidos, torcidos, chorosos talvez, usa uma camisa jeans sobre o vestido - esconde a nudez dos outros, é só pra ele, o menino. Sim, um menino barbudo que precisa levá-la dali e lamber tudo. Beijou os pés sujos, cúmulo do querer dormir junto num transar elástico, deve ser agora que vão embora. Não, ainda não, todavia se seduzem, sorvem cerveja, o néctar de uma noite sem lua. Cabelos sebosos, despenteados, encaracolados, nem curtos, nem longos – ela enterra os dedos no calor dos dele e massagem. Massagem, outro ímpeto. Apresentação de erotismo, ensaio de posições - ele se ajoelha em frente à cadeira (dela), beija-a num beijo de meneios de cabeça, mãos se alisando e também puxando a camiseta pra baixo (escondendo a protuberância da carne).
Prontamente se refez. Voltou à cadeira em posição “à vontade”, pernas abertas, cadeira de frente pra outra, apoiadas sobre as pernas dela. A hora não chegou, e a calcinha é definitivamente dele. Mais macho ainda - porque ela parece enfrentar certo pudor, ou faz um número de vergonha - ele a agarra trazendo-a para seu colo em tesão pronunciado. As mesas ao lado se alvoroçam, nem é tão tarde ou meia noite, porém certos habitantes condenam a volúpia explícita; ao mesmo tempo em que tudo vêem e quase mordem os copos de vidro à boca...
De olhos fechados ela se tranqüiliza, como se não fosse ela mesma a mulher, então abre pupilas escuras escondendo o rosto no riso de menina, e sagaz encenando a fala... Devem estar falando sobre movimento quando ela abaixa as mangas da camisa sacudindo os ombros como dançarina de metade do corpo na metade dele.
Cena final: preliminares ao cubo, cadeira com cadeira, um de frente para o outro - ele acende um cigarro, precisa de fôlego e mais cerveja, parece a primeira noite de uma terça-feira...
E assim os deixo, sem haver chegado hora ou luz na rua.
Palena Duran
(2001)
Escrito por porque escrever é preciso às 11h40
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