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Coluna SEM INOCÊNCIA
Estréia (um depoimento)
Primeiro ele chegou devagarinho como é o proceder de certos mineiros, Naiman maneirinho com suas canções malemolentes, poesias montanhosas, siderais e esperançosas. Leu, escutou, fez que viu e não viu, fez que foi e não tinha ido, e foi. Em dia sem aviso, sem mais nem menos, disse que ia apresentar um trabalho seu (não é um cd!) num teatro que eu já conhecia, e me convidou a ler um texto que havia ‘gostado’. Essa coisa sem muitos nomes quando a gente gosta, sente, e não há mais o que dizer a não ser... venha comigo, juntemo-nos. Naquele tempo eu andava meio macambúzia, menos que agora, embora não perca esse estado veizemquando.
Então ele escolheu o texto e foi em casa para ensaiarmos a música. Enquanto eu o lia ele tocava, e para uma tímida confessa não pode haver algo mais constrangedor. Ensaiamos uma única vez, depois foi aquele rololô de não dá, não posso, agora isso, depois aquilo. Até o fatídico dia em que eu teria de ir mais cedo ao teatro para, no mínimo, reconhecer o espaço e testar o som, microfone, coisas de quem ‘se apresenta’ no palco. Acontece que sou do tipo que muitas vezes se autoboicota, então acabou que saí tarde de casa e chovia, chovia, e o destino era o CEU Aricanduva. A mesma avenida com fotos clássicas de enchentes nos jornais – ZL, minha gente. Daquela uma hora e meia que eu havia previsto para chegar, levei bem mais de duas. Cheguei ao teatro com a apresentação iniciada, o jornal com o texto impresso debaixo dos braços (Café Literário, n° 18, se não me engano), e a enorme vontade de que ele tivesse esquecido de mim e tudo aquilo sobre o que não conversamos ou musicamos nas semanas seguintes ao único ensaio.
Entrei atrasada, lama nas botas, despenteada e medrosa num teatro escuro de clima iniciado. Sentei-me ao lado de algum amigo, não sei quem exatamente, e ali fiquei na posição que adoro: a assistir. Não passiva, mas parte do público, a observar. E no fundo do fundo aquela latência, será que ele lembrará...? Eis que passadas as participações de várias pessoas, músicos, poetas, atores, atrizes, performances e coisas assim, o Naiman lança a pergunta: ‘A... está aí?’. Não pude evitar responder, com o jornal dobrado na mão me apresentei. ‘Venha, por favor’. Fui, enlameada e encabulada, feito vara pau.
O corpo inteiro tremia uma sensação de nunca dantes, as mãos não respeitavam as vontades, o corpo não se encaixava na cadeira, e Naiman apenas me observava no seu jeito mineiro maneiro de ser. Talvez jocoso, nem sei. E não que tivesse sido a primeira das primeiras, porque toda vez me parece assim, e a primeira é sempre uma primeira. Mas ali estava evidente o quanto eu havia me boicotado, o quanto havia relutado o inevitável. Faltar ao compromisso pode ser possível, mas não comparecer à estréia é semi-impossível. E lá estava eu, absolutamente trêmula, embora a voz fosse a mesma, a ler:
segue o texto no http://banga.zip.net - só hoje, às quintas-feiras...
Escrito por porque escrever é preciso às 02h12
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capa de disco de Victor Hara, cantor e compositor chileno assassinado pela ditadura de Pinochet em 1973.
Revoluções sem aspas
Tem sempre a hora do silêncio e a poesia do amor demais pra quem é de amar e cultivar jardins de sussurros. Tem sempre o momento em que os motivos das grandes razões humanas e existenciais borram-se às vistas, porque as coisas do mundo espantam e nos apegamos à vidinha comum e diária. A normalidade que nos calça os pés no caminhar de todos os dias. Acordar, trabalhar, penar, sofrer, comer, alegrar, recordar, amar, dormir... E tem sempre alguma insônia vagueando por aí, porque no fundo ‘ninguém dorme na cidade’, como escreveu um poeta. Aqui não se descansa plenamente, a cidade é elétrica e estamos sujeitos a infinitos estímulos que nos retiram das coisas simples da vida. E tem sempre a preocupação com a sobrevivência e o futuro presente que tanto se esconde.
Semana passada saiu um caderno especial (no jornal Folha de S. Paulo) sobre o Clima na Terra, com base na divulgação do quarto relatório de avaliação da saúde da atmosfera, produzido pelo IPCC (Intergovernmental Panel of Climate Change, ou Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática). O tal futuro que sempre nos pinça as idéias, talvez. E o quadro é tétrico para o século vindouro.
Minha avó se disse deprimida, um amigo se confessou enlouquecido e previu uma tragédia no mundo por causa do aquecimento global, e meu pai estava hoje mesmo enraivecido com a devastação da floresta amazônica. A lógica e o método colonial permanecem semelhantes há cinco séculos, nas mentalidades, na predação, na dilapidação de matérias-primas quanto na prática das queimadas.
leia a continuação em:
http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=214
Escrito por porque escrever é preciso às 14h18
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Ph Alexandre Wittboldt
in http://www.imafotogaleria.com.br
Para um cavaleiro andante
É como se eu te soubesse de outros carnavais gregos, brasileiros ou venezianos. É como se me lembrasse da tua voz na pele. Do beijo que cobre essas angústias nas obscuridades do mundo. E me azulejas o dia num abraço ensolarado. Feito a noite passada, quando chegastes debaixo de chuva para os carinhos inadiáveis. E tua boca se pronuncia nos meus sorrisos no laranja da tarde.
Agora, então, logo agora levito sobre teu peito e não me vês. Sou o calor à volta, as plantas que arejam a casa e, talvez, quem sabe, o ambiente harmônico do teu coração. Encaixo-me nesse sono preguiçoso, aliso o rosto menino, entro com as mãos nos teus cabelos e ronroneio uma canção de paralisar o tempo. Dorme, dorme porque a lua brilha aos teus encantos. Enquanto me abaixo para colher as flores do caminho, as estrelas piscam à tua passagem. E meus passos produzem sombras amor-rosas pra te alcançar inteiro.
Mas de repente – não mais que de repente - um medo, medinho, você me escapa pela porta de um pesadelo qualquer. Sai por um lugar que não conheço, quase desfaleço e fico a te esperar debruçada na janela embaçada. Daí acredita que nada faz sentido, amar não tem propósito, pra quê desejar, escorrego pelas frestas da invisível solidão e vôo. Vou-me embora, desligo os canais, chuto pedrinhas pelas ruas, espremo a paixão suada nas palmas das mãos e ninguém nota que em bambu me desfiguro.
Ao chegar onde não domino a aurora me derrete, converso com a pétala de rosa há tempos no meio do livro presente de cartas a um jovem poeta, a pétala que saiu do bolso da tua calça ou dos olhos escuros de madrugada, já não sei, apenas rezo: ‘guarda-me amora!’.
Escrito por porque escrever é preciso às 23h46
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