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Aprendiz do tempo

 

Por vezes misteriosas memórias me assaltam. Esses dias de estar na rua indo de um lugar a outro, quando de repente sentimos um antigo cheiro ou vemos alguém que nos lembra outro alguém e, assim, trilhamos o campo das sensações e dos acontecidos. Que nem sabíamos mais como ou aonde, vem num relance, meio espanto, meio surpresa. Porque experimentamos distintas vivências todos os dias e nem nos damos conta, ou melhor, não apreendemos tudo que vivemos. Porque há o espaço dos sentidos, talvez algo de oculto em nossa existência. Entre o real e apreensível e o etéreo ou sensível, quem sabe.

Semana passada caminhava em direção ao bairro de Higienópolis e ao alcançar a Avenida Angélica, bem no último quarteirão, revi o prédio da adolescência. Num repente me veio o nome do edifício, o número completo, o apartamento, o telefone, aquele dia em que... assim, sem mais nem menos. Assustei-me, nem sabia onde andava encaixando esse viver de tanto tempo. Decerto tem alguma relação com a memória afetiva, os afetos direcionam boa parte de nossas lembranças, é. Nessa onda, então, acenderam-se coisas que eu acreditava esquecidas. Também por acaso era dia de feira na rua de trás do Cemitério da Consolação. Fui caminhando devagar, observando, a olhar e escutar os gritos anunciando frutas, legumes, verduras, coisas do Brasil colorido. Recordei dos longos passeios com os cachorros, dos tempos em que trabalhei no Anglo da Rua Sergipe, do pastel com caldo de cana às quartas-feiras, tantas cenas, amigos queridos que não vejo mais, nossa! Quantos filmes nos cabem (...). Basta um bocado de esforço e 'querência' que vamos rodando películas e películas.

 

continua em minha coluna no site da Geração Editorial

http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=202



Escrito por porque escrever é preciso às 14h17
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                                                                  foto - Rui Rezende

                                        http://www.fotosdachapada.com/index.php 

 

Pra se lançar

Coluna SEM INOCÊNCIA - em http://banga.zip.net (às quintas, com ou sem feira)

 

Ah, se já perdemos a noção da hora...

E você bem aqui no meu gosto. O que procuras? Diga-me enquanto te acarinho e banho meus olhos nos teus silêncios. Fantasias, para onde vamos quando o desejo nos deseja e dizemos saudade, meu bem? Depois perguntas dúvidas vertentes avalanches de pó - eira de retinas tontas a desenganar o felino. É noite na intimidade das ruas quando nos assaltam hábitos naturalmente criados, o sonhar no caminhar tresloucado, transgressivo. Se o melhor pode ser o agora, quero mais desse universo líquido que a gente também teima em mastigar - amor, desejo?

Às vezes é preciso ir e permitir o contra e o fluxo. Então vai viver, correr, lambuzar-te por aí, vai livre, mas deixa teu sal na minha saliva. Faço arder um caminhão de bobagens quando viras esquinas na quebrada, rumo a qualquer lugar. Já venho, sempre dizes, te desperto ao chegar. E nada ocupa esse intervalo até que voltes pra me salgar. Mas também adoças o desequilíbrio, desacatas o previsível, e vozes à volta gritam, açoitam a razão. Deixa, deixa-o ir!

Deito-me no banco do jardim invisível e brinco de te empinar, feito pipa ou balão de gás com cordinha. Deixa, deixa-o ir e voltar. Enquanto seus gestos me respiram. Guardas o sol das manhãs se teus braços se apertam em concha sem abraços. Congelo lágrimas em estalaquitites. Reflexa amora à espera – desejo?

Ô abre a roda, deixa a rolinha passear...

Ao mesmo tempo já não faço fé como antes e parece natural brotarem diferentes sentimentos nas coisas conhecidas. Viver, amadurecer, comer, cair da árvore. Também conviver com o idílio do imaginar, ar, ar na mansidão. Encaixar nos passos da delicadeza e flutuar, ar, ar de brisa no rosto do tempo. Lançar-se ao mundo como se fosse a primeira vez. Assim é maresia no ártico e um punhado de serenidade. Afinal, quem nos dá força pra sermos tudo o que podemos ser – amor, desejo?

Embora o queira nas frestas da vida, sei de ontem nos caminhos cruzados. Tua figura me atravessava, nem vento na ventania. Minhas mãos se enroscavam em teus cabelos e me transfigurava esse dialeto profundo de sentir. Alvoroçava-me o teu sabor quando cedo me tocavas e ao ceder logo desfalecia. E eu que em amor amei tão pouco, pensava, agora tranço um destino ao luar porque já não me queimo de antigamente. E nessa hora desavisada, perigo à vista, simplesmente você na pele do dia abrindo as janelas do quarto, passeando feito brisa solar.

De onde vens? Por que tanto demorar? Quando foi que a despretensão se tornou esse vulto dinâmico que vagueia tão livre? Inquietude de minh’alma permita-me o respirar macio. Sorver segundo por segundo o gosto natural desse tempo de querer tocar, ver, aspirar, beber... Dá-me vida de pulsar! Sem morrer ou matar, venha tímido ou correndo no clarão da mata aberta, mas vem, esteja, desejo, seja.



Escrito por porque escrever é preciso às 12h08
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