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AMORA
de Bia Clark e Palena Duran
Embora ingênua, caminhava sem inocência. Tinha no andar o gosto das manhãs ensolaradas, na pele o sabor dos parques de visitar, antiga casa com varanda, móveis de jacarandá, bolo da tarde na cozinha, café, árvores carregadas de frutas, pé direito enorme à vista de descansar. Seu nome, Amora. Nasceu em dia que ninguém sabe, porque Amora não envelhece, oferece. Nem pai, nem mãe, filha de água, vento, terra. À noite, Amora flutua.
O rio que navega Amora é manso, a flor que namora Amora é solta e cheia de aromas. Ao contemplar as tardes que se inauguram devagar, Amora senta na beirada da planície e fica ao sabor dos ventos, o azul chega a esbarrar em seu vestido. Dentro de um silêncio, a fragilidade é cristal. É que Amora já foi embora do lugar onde está.
E na invisibilidade das coisas é que Amora ressurge. Também quando sonha arco-íris, cores e chuvas que não molham, Amora se faz sorrir e ri o verde natural. Vence os olhos acesos à sua procura nas janelas. Às vezes num banco de praça, entre bebês, bichinhos, crianças, avós ou mulheres de branco leite, Amora no ar desenhando toques de gentileza, passos vagarosos em aguda delicadeza. Aos poucos se lhe nota, no consolo imprevisível das lentas ondas de sangue, nas veias flui Amora. Em horas desavisadas até mesmo os santos recorrem aos seus toques, vinde Amora, desatenta embora, vinde além. Mas ela prefere o balé dos sopros solitários benditos, ah, Amora que leva e traz o segredo que nos devora!
Escrito por porque escrever é preciso às 11h27
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foto de Paulo Ito - http://www.fotolog.com/paul8
Coluna SEM INOCÊNCIA
Por que assim? Em lamento sobre o balcão, enquanto tento me desvencilhar das sensações que gotejam sobre o pescoço. Sussurram que eu deveria aplacar o vazio por trás das lentes, escorar o gemido e contar que se volta e retomar o olvido, mas. Desconcerto. Estou me guardando para o carnaval e não se sabe o que teria sido. Poderia dizer sim e talvez mais ainda, mas. Os arlequins gentis rodopiam e o pierrô ali calado, apoiado sobre os cotovelos, na outra margem do rio, bambo de boiar no reflexo da poça de mágoa. Fui dormir com tua dor me comprimindo o peito. Dissonância. Tudo dispersa, chuva, suor e vozes graves permeando o horizonte. Quisera emprestar meu bem e não precisar do verão por dentro e saber restar no espaço solitário. Por pouco, mas que te arrancasse o desgosto e não te custasse tanto sorrir ao pesar de mim e não destilasses essas lanças agudas sobre minha pele nesta manhã. No entanto acordei pálida com tuas lágrimas secas nos meus dedos. O que faço, então, com o impronunciável? Guardo no núcleo dos silêncios, na gaveta de meias ou nos cachecóis do inverno? Nas barrancas dos rios, nas preces dos tambores, nas fogueiras dos terreiros, no samba da vida?
veja mais em http://banga.zip.net
Escrito por porque escrever é preciso às 14h39
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Sylvia Plath
Sobre mulheres e peças íntimas
Depois de uma curta viagem de ano-novo com a família, do breve descanso que limpa as vistas e o pulmão da poluição, de volta à megalópole. Nada muda tão repentinamente, a não ser o intenso assunto ‘chuva’ nos elevadores, enchentes calamitosas no sudeste e questões nacionais na campanha à presidência da Câmara. Mas nesta semana começa o ano, é o que dizem por aí, embora alguns estejam se guardando pra quando o carnaval chegar.
De minha parte, fui à clássica e tradicional limpeza de armários, gavetas, papéis, livros, telefonemas, coisa e tal. Deu-me aquela boa sensação de por a vida em ordem, arranjando espaços para os pensamentos, imprimindo as importâncias entre (in)certos assuntos, relembrando as coisas adiadas, os encontros desmarcados, enfim, a imprescindível faxina geral. Desde agora, de coração, agradeço as mensagens de ano-novo que tenho recebido, aos importantes comentários dos leitores, as saudades reveladas, as amizades frutificadas, fortalecidas, etcetera e etcetera.
Mas, então, nessa arrumação toda foi que me deparei com a gaveta de peças íntimas em completa desordem. Vagamente me pus a lembrar estórias e refletir sobre a gaveta de calcinhas e sutiãs. Mulheres têm seus rituais, umas põem sache, outras sabonete, e também dá pra borrifar algum perfuminho, mas geralmente há um cuidado especial com este espaço. Claro que têm as desencanadas, alérgicas a aromatizantes e firulas, que conseguem tomar banho e ficarem prontas em 10 minutos, não dão bola pra perfumes, cosméticos - sem, no entanto, perderem a feminilidade ou a delicadeza -, existem as mulheres práticas que tanto admiro e não sei muito bem dessa arte.
leia a continuação no site da Geração Editorial
http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=192
Escrito por porque escrever é preciso às 17h03
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