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'Samba Banga', foto de Ana Claudia Calomeni

mais fotos no http://bangaimagem.nafoto.net/

 

É fora, é fora, é fora-da-lei, é fora do ar!

 

Perfumada

 

Quanta coisa nesse desprendimento do ano passado. Talvez os sonhos se espalhando novamente. Mente? Ontem a essa mesma hora estava na vila, com algum banzo e ele. Esse que chega de mansinho, envolvido em charme e simpatia. Carinhos bem feitos e precisos. Cuidados. Já estava desacostumada, meio gélida até, mas ele trouxe esse manso calor sem afoiteza. Ah, quanto bem soa devaneio.

De minha parte trago as vírgulas também, pontos e vírgulas porque preciso respirar melhor. Já não engulo tanto oxigênio pra ficar soluçando como antigamente. Mente? Imagina, pura verdade despretensiosa. Na viagem de alguns dias atrás acompanhei os verdes sobre verdes, tons naturais, areias pastéis, águas doces e salgadas, morros daqui e de lá. Linda estrada de ir e ir e ir. Salve os suspiros da felicidade estradeira! Mas ainda falta o cheiro intenso do mato aos dias ou ao sereno, é preciso mais tempo para os afetos da natureza. É imprescindível escutar os pássaros, as cigarras, os grilos, sinfonia de sapos e ondas quebrando.

E sentir-se viva e desejosa novamente. Mente? Nada, não juro, lembre-se, apenas prometo. Assim é que ele agora me toca num abraço que encosta braço no braço, enlaça-me em mãos de massagem e suaves línguas. Tenho seu gosto por aqui, gosto de querer bem, como escreveu. E estranhamente tranqüila me encontro, não há expectativas. Não há futuro ideal, fazemos as coisas dia por dia, assim faço este momento. Nada além do que é em si, nota musical.

Depois das quedas e cachoeiras torrenciais torturando meus ouvidos de ruídos e gemidos, creio que. Volto para sentir a vida simplesmente. Volto pra não ser a mesma de antigamente, sem chapéu, tenho flores a oferecer. Distante de mágoas ou ressentimentos são sentimentos amorosos sem sobressaltos, sem débitos, sem queixas, sem depois ou depois. E a vida do mundo mundana fica, aí está na cara de todos - basta olhar nos olhos da gente. Essa espécie rara que somos. Costureiros temperados ou destemperados. Costureiros da vida e seu viver.

Em meio ao vazio que tinha, nem triste, apenas um vácuo emocional, foi que ressurgiu a melodia na pele. Atração, vontade de boca, desejo leve de dançar sem porém, veja bem. Repouso na rede e o mundo se explodindo, parem as máquinas porque temos tanto a conversar! Com elas o mesmo muito a dizer e criar, e mais ainda, porque tudo é mais banga do que pode parecer. Vamos de sim em sim, pois é possível o sim.

Enquanto as coisas vão se encaixando sem espremer, ficamos de mãos dadas porque queremos, é amor de sonhos e amizade. Voltar ao mar e amar caminhar pelas ruas aos finais de tarde, no verão assistir ao sol como um espanto de lua cheia. Bella luna, muy bella. Quero te beber, dar e sugar esses raios. Ser flor e espinho na maciez dos lábios de alguém, sin dolor. Quando desarmada ele tentou e chegou, desse jeito como estou, sem escândalos ou desesperos. Vivamos, então, viva, vamos!

Sem passos premeditados, contas, cálculos, estratégias, vivamos a suavidade do instante. Dançar jongo, acariciar o pescoço no samba colado, brincar de girar as noites nas mãos dadas doidas de aventura e lucidez. Combinar que faremos diferente quando acontecer de ser - um cinema, café, o próximo beijo, jantar, dormir, descansar - porque há essa expressa tentação de busca, em busca da emoção que nos arranque da brutal cidade de batalhas sobre batalhas. Lá fora há guerras e há quem faça amor e amizade. De vagar, devagar chegamos. Viva, vamos! À vindoura, venha, brinde.



Escrito por porque escrever é preciso às 23h22
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coluna SEM INOCÊNCIA, hoje, às quintas.

em http://banga.zip.net



Escrito por porque escrever é preciso às 09h41
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Engano

 

Fecha os olhos porque tudo pode ser equívoco e lamento do futuro. O cheiro das maçãs não se transforma em gosto a qualquer hora, dissipa essa hora passada. Lembra que pode não ter sido contigo e vira a cara para o reflexo. Igualmente esquece e frio à toa entra de roupa na água. ‘Mãe preta, mãe preta onde é que estás agora? Tua morada é bem longe, é bem pertinho de Angola...’ E lá no brilho quente tocam tambores - alguém te visita.

 

Abre o corpo agora o nu sagrado na voz; Etta James cega sentidos. Deita no chão de braços bem apertados - cava teu buraco, mora. Segreda que só tinha um pequeno desejo e lágrimas vertentes; 'Say blue love to you'.

 

Entra na ponta dos dedos pra eles não; estampa a palma na mão, escancara tua máscara.



Escrito por porque escrever é preciso às 09h39
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o texto completo, então...

Coluna SEM INOCÊNCIA, em http://banga.zip.net , às quintas-feiras.

E quando

 

De todo hoje há um rastro de ontem. Anteontem no andar afogado de lábios molhados, braços frouxos, palpitação dormente. Uma mulher caminha descalça pela madrugada como se estrelas lhe encobrissem a pele descoberta. E o fino frio destilado no bico dos seios que não se tocam sem inocência. Às vezes navega apenas um comprido cansaço, deita os nomes das coisas na distância imponderável entre o agora e o nublado das manhãs chuvadas. Nevada de depois, polvilhada de medo, ela segue rumo às águas mornas. Desfaz o mofo das coisas partidas em luto silencioso, deseja falar a língua dos pássaros, ássaros, ah! Alcançar o som do clarão, bem-te-vi na fantasia desesperada por desejar ser. A busca contém necessidade de paisagem, longa sede na fome de curto alcance, uma trilha de esperas na urgência e na contemplação do tempo. E a paixão no gosto intenso que não ofuscasse a razão, motivos pra não ser deserta. Riscos de risos feitos raios, um pressentir futuro na poça d’alma. Namora cerejas nos tons de sonhar. Vai-vem de ser e estar.

Tem noites que se querem duradouras em nome do sigilo de estar vaga voar. Se rios me riem estou em mim. Se forte me faço fraca, bambu que cede ao vento, não tem nada não. No respirar pode haver calmaria de roupa secando no varal, o canto da melodia adiada, regar aquele bom dia, deitar olhos ao sol, espreguiçar segredos e também lançar pressa em sacudir a poeira. Ser em conformidade, roçar os contornos do universo no corpo e do céu reconhecer manchas e desenhos nos mapas. Eu-mundo-nós-eu-nós. Permitir que a harmonia preenchesse os buracos da alma pro bem do espírito e, assim, a essência se tornasse viável na duração relativa das coisas. É doce esparramar pelos lábios brigadeiro, cariño, beijar lágrimas num filme, singrar nas fontes da vida. Bem maior é a felicidade dos campos verdes de aboios onde se renasce para viver. Tirar das mãos as fugas e as covardias, afastar o sorrateiro e sombrio que por vezes se mistura aos enlaces. Apalpar a verdade e a sensibilidade. Escutar o murmurar da concha aos ouvidos, a infância a gotejar fundo no mar de pequenas alegrias que ainda são, fazer o adulto dormir sem sobressaltos, somar os estares, rir da criança que se esconde atrás do sofá ou do gato estabanado que derruba o vaso na maior zoada. Ser nas coisas de fora que se põem dentro e vice-versa. Ser areia e água, ora una, ora várias.



Escrito por porque escrever é preciso às 13h46
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