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Primavera Verão 2006 / 2007
Mera quinta-feira, aos pulsares do coração é quase sábado, véspera do natal. Digo os corações nas ruas, as pessoas ansiosas pelo momento de pausa até o ano-novo, talvez sem saber estão a celebrar a quebra da rotina. Também, também, além dos reencontros entre amigos e familiares, comilanças, troca de presentes e bebemorações alegres. Sair das mesmas coisas por alguns momentos seja por alforria ou transcendência, enfim, mais uma prova de que não somos máquinas e desgostamos profundamente do fazer unicamente uma só coisa todos os dias da vida, pois temos diversas habilidades e capacidades por exercer.
Confesso que aos finais de ano quase sempre me ocorre uma espécie de agonia. É como se me sentisse coagida a sentir alegria, esperança no repensar a vida, razões e emoções, a traçar planos e metas para o ano seguinte, e o tempo é curto. Sempre é pouco o tempo de se aprofundar nas questões existenciais e de longo prazo, ou assim me parece, ou assim é que sinto agora ao não ter as palavras otimistas na ponta da língua, mas apenas esse louco bem querer pela humanidade... E a pulsação extremada nas poluições; compre, compre, seja feliz, seja feliz, agora, agora que é natal e já vamos saltar para o ano que vem!!! Hiper exclamativo. Ouço gritos por toda parte, nos olhares, conversas, gestos e pequenas ou grandes euforias. Quase como se o mundo fosse acabar, algo assim.
(continua abaixo)
Escrito por porque escrever é preciso às 15h44
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Daí começam a chegar mensagens, cartões, despedidas, abraços... Burocráticas e não. Nesta semana tive a sensação de que o mesmo serviria a quem está à beira de morrer. Sei lá, a maneira das saudações ou nova-mente minha exaustiva sensibilidade, pareceram-me mais votos de ‘para nunca mais’. Ou esse incerto desespero do amanhã, a realidade nos entranhando, contas vigiando os passos, laços, o Brasil de brasileiros destroçados, o medo de não saber o que será.
Assim sendo, não tenho sofrido de excessiva felicidade, o que tampouco me agrada, mas também não me sinto feliz. Algo errado em contar? Vai passar, deve ir para voltar noutra hora, a vida é assim feito gangorra. Parece-me mais factível que nossos humores também sejam bastante influenciados pelas curvas econômicas, uma linha tênue entre o bem-estar e a falência. Nesse sentido o futuro também soa curto, porque não sabemos se as bolsas despencarão do dia para a noite, até quando se estará empregado (a), até quando desempregados (as) assim restarão, disso em diante, e a humanidade... É de capital importância saber dos rumos do capital. E mais sobre o faz-de-conta de que estamos sempre caminhando em curva ascendente (por isso a tristeza é condenada e dá-lhe remédios e remédios?), a quem interessar, leiam o atualíssimo artigo de Robert Kurz, de 1999, no link http://obeco.planetaclix.pt/rkurz69.htm
Ultimamente, então, nem música e leituras me retiram das ansiedades diárias, as urgências que pululam a cada segundo, e não sei dissimular ou disfarçar o que não dá pra ocultar. Inda agorinha lia num jornal de grande circulação uma crônica sobre algo semelhante, a impossibilidade de – ao olhar para o tempo que se esvai – escrever em prosa e poesia a leveza no cotidiano. O cronista diz que às vezes é inevitável mexer no fedido, podre e fétido do real, em todos os âmbitos, e assim o fez. Calaram minha boca uns gostos azedos, amargos, repletos de porquês que aqui não reproduzirei. Porque meu cotidiano e, conseqüentemente, meu olhar sobre o mundo, andam contaminados pela descrença.
Olho para o passado recente e vejo bons momentos, sem me agarrar a eles procuro acrescentar doses de ‘vai melhorar’, dia após dia. Embora o cansaço das batalhas perdidas e os sucessivos nãos da vida me venham na mesma medida, meu coração vagabundo não quer mais amarrar frustração e não se cansa de ter esperança. Quase como uma prece, um ato de fé, confio em mim, confio na gente. Busco por trás do visível, além das palavras e aconteceres reais, a ilusão necessária para sobre-viver.
Outro dia parei pra tomar um refresco antes de adentrar as portas de uma editora onde faço revisão de revistas e, entre um gole e outro, anotava pensamentos no caderninho, desses que escapam muito facilmente, quando surgiu uma abelha perdida em busca de doce. A coitadinha sofria, circundava o copo, a latinha, e eu a espantava. Ela não desistia, atordoada e obstinada, enquanto eu me dominava para não perder a paciência e matá-la de uma vez por todas, um tanto quanto ridícula continuava a abanar freneticamente os braços. Tive de levantar com o copo à mão e permitir que a abelhinha fosse embora livremente, mas não, ela ia e voltava, vinda das alturas mergulhava como se soubesse sem ter certeza que ali estava o fim de seu desespero. Ainda deixei um restinho de bebida na lata, crente que ela entraria, beberia e – depois – feliz voaria.
A atendente veio em meu socorro com o cardápio nas mãos, desculpando-se pelo inconveniente e enxotando a pobrezinha. Já estava a um milímetro de bater na abelha, quando eu disse: ‘Não, não faça isso, deixa ela, coitadinha, não tem culpa de nada. Aqui na cidade não tem pólen, é disso que ela precisa...’. Não sabemos mais conviver nem com insetos, pensei, quanto mais com seres humanos destoantes, diferentes, divergentes. Fui-me com o peito comprimido, em lamento, meio querendo voar, meio sumir pra qualquer lugar. Xangrilá? Não sem antes sorrir e desejar a todos um bom natal, lindas festas, feliz, feliz ano-novo.
Beijos, abraços e apertos de mão,
Palena Duran
Leia mais em minha coluna no site da Geração Editorial
www.geracaobooks.com.br
Escrito por porque escrever é preciso às 15h42
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Deve passar,
como as chaves de aluguel
estridentes
de tempo em tempo
o pó espalhado
e formigas por companhia.
Tète a tète com a falta
da falta e faltas,
apenas papéis, chavões,
dinheiros, precisões,
números, botões,
burocracias, inanições.
Mas chegará,
já já seremos felizes,
tende paciência.
Só espero
não esqueça
raios astrais,
dia, hora exata...
dos risos nos passos
brilhos nas cores
amoras, amoras.
Na cadeira balanço
terço
delicadeza
em suave idade.
Escrito por porque escrever é preciso às 23h05
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Coluna SEM INOCÊNCIA
Hoje arrisco rabiscos em http://banga.zip.net
Escrito por porque escrever é preciso às 00h38
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livre intervenção de Palena - '...a não ser esta, assim é esta...'*
Não sei como um estranho teima em gostar de mim. Ele que nunca me saberá e se satisfaz com tão pouco. Não sou apenas o que pareço pra fora e nem compreendo como isso bastaria a um ser humano que se entrega aos encantos e sacrifícios do amor. Sim, os jardins têm pragas. Há que se localizá-las, ter cuidado para não perder o critério e a noção dos sentimentos. Nas flores, nas árvores que conversam com os passarinhos. Dói sentir, mas isso é óbvio. A maravilha deve estar em reconhecer as pragas, superar as possíveis perdas e seguir. Rumar. Regar jardins. Matas virgens ou a segunda natureza. Precisava de alguém que me acompanhasse, às vezes ainda desejo um corpo quente feito abraço forte. Xícara de chá de hortelã ou horizonte. O que ocorre é que ultimamente olho para trás e nada vejo, entreouvidos nem beijo, deserto assim e assim. De uma vez por todas, então, assumo. Não mais me iludo com boas intenções, homens sensíveis ou a delicadeza das conversas inteligentes. Inteligência não faz amante. Os finais têm sido semelhantes. Sem conversas de qualquer espécie, apenas um novelo de silêncio e eu que me firme onde puder ou quiser. Simples, é a natureza? Terceira ou quarta que seja. As flores têm seu tempo de vida nos vasos, paixões também. Pergunto-me quando haverá calma e consentimento, algum equilíbrio entre temperos. Mas amor é maior e eu jovem. Sim ou não. Tive um único grande amor maduro, outro dia tentamos nos fazer carícias e caímos do galho. Não me penetra nas veias como antes. Cede sentir. Meu melhor e pior. Palavras o que penso sobre você.
* Esta
Chico César
Nenhuma mulher me basta Mesmo que se meta a besta Mesmo que se finja casta Venha rindo numa cesta Hare-krishna, puta ou rasta Dê-me prazer, reza, êxtase Chegue quando o mal se afasta Nenhuma mulher me basta A não ser esta, assim é esta Que traga ouro na testa Dê forma à disforme pasta Seja a única que resta De matéria que não gasta Tenha gestos sem arestas Arre na festa nefasta Trigo pro pão, luz na fresta Nenhuma mulher me basta Fedra, Medéia, Jocasta A cachorra da moléstia Peste que me arrasta Cura pra minha imosdéstia Couro de anja, pele de ginasta Pôr-do-sol que resta Sou sozinho, a vida é vasta Nenhuma mulher me basta
Escrito por porque escrever é preciso às 00h59
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