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Triste é não chorar
*Para Eliana Castanho
Escreveu-me que chorou adentro afora quando de sua janela o mesmo chove. Deve ser o coração de seu mirar, porque ela tem essa fina melodia dos cristais nos recortes poéticos que produz. Seus tilintares, minhas miragens. E eu em árida tarde de pensamentos desencontrados, a milhares de quilômetros distante do nada que se me sai quando vou. Há dias tento arrancar asas do cinza chumbo e só poeira me cobre no vazio do não. Tudo vaga, os cachorros passeiam, crianças riem, ventania de motores, e desvairo na cama entre sucessivos pesadelos antipoéticos. Estou cheia dos reditos, sem desejos no verão, meio papel de parede mofado e sei do que preciso urgentemente. Porém fora de alcance, dança nos dedos a espera, à espera. Esse engasgo que rasga a garganta e torce a voz sem afeição.
Preciso lhe contar que faz sol, embora em mim esse frio danado nos pés. O ideal seria enviar algo doce para ela, tão morno que abafasse qualquer dor implícita no choro. Se houver dor e não for apenas um sentir demasiado, porque ela tem disso, melancolia de brisa, feito cor de ameixa na atmosfera, nem sei. Mas descreverei as mangas deliciosas da estação, rubras e carnudas, doces como as frutas que estouram maduras dentro da boca. E que também me delicio na luz entre primavera e verão, sei que lâminas rajadas partirão o sal da pele.
continua em
http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=177
Escrito por porque escrever é preciso às 01h08
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Coluna SEM INOCÊNCIA - hoje, quinta-feira.
Mais do mesmo
O homem canta Jesus no ônibus e você no que agora leio. O de antes contido no de agora num porto tão pra lá do que existe à volta. Pela janela escorre água de primavera verão dezembrino. Ao lado do Obelisco um cone gigante, e querem nos fazer acreditar que é uma árvore de natal essa forma sem sentimento, com laços e vermelhos e verdes, rodeado por anjos brancos de gesso. Tinham de ser brancos os anjos, assim como Jesus sempre com sua pele branca e olhos azuis, alucinam-nos a toda hora. É a Prefeitura de São Paulo desejando-nos bom natal depois do aumento das tarifas dos ônibus e outras que chegam na esteira dos brindes natalinos. Mas a economia continua estável, meu povo, não há inflação! E o homem esgoela nos meus ouvidos: vem Jesus, vem, veeeemmm...! Não tenho coragem de olhar para qualquer alguém, porque se vejo comoção ou convalescença, caio numa dor antiga... Ah! soldados operários da reprodução dos estereótipos.
continua em http://banga.zip.net
Escrito por porque escrever é preciso às 11h02
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