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Amores confinados

03-11-2006

Em feriado de finados sempre chove. Mesmo com a loucura do clima planetário isso se mantém, é de lei, deve ser como as lágrimas que não envelhecem. Digo assim porque tenho sentido as coisas por um viés sentimental. Falando nisso, outro dia um homem me escreveu que estava ‘descendo para o fim, para a morte’, por ter 55 anos. Tratava-se de amor, ou emoção familiar. Ele dizia que não tinha mais tempo de vida para tentar conviver com ‘tudo de bom e tudo de não muito bom’ que contém uma relação entre pessoas diferentes. Eles têm 23 anos de diferença, e a ele ‘restam poucos anos de vida com plena energia’. Verdade, mas tampouco sai de certa lógica contemporânea na qual os conflitos se tornam empecilhos. Entraves à harmonia ou coisa parecida.

Para mim a decadência está em abdicar do sonho de re-viver, re-volver. Mas não pude dizer muito, apenas que o tempo é invenção e – irremediavelmente – morremos e vivemos todos os dias. Que nada têm de santos, por sinal, ainda que haja dias divinos e mágicos como a constelação e o universo. Não se compreende o carpe diem... Mas confesso que nesses duros dias pode causar preguiça amar e conviver com alguém. Dá trabalho e poucos querem trabalhos não remunerados, voluntariosos. Pesos e medidas. Tem gente que acredita em paz sem conflitos ou em solidão sem conflitos. Ignorância ou intolerância, não sei.

leia a continuação no site da Geração Editorial

http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=158 



Escrito por porque escrever é preciso às 16h16
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Então é fim de período eleitoral. Finalmente alguns voltam pra casa, barracos ou palácios, refazem seus planos, orçamentos, sentimentos. Temos uma brecha até a neurose do natal. Daí o país pára novamente até depois do carnaval. E tudo independe do horário de verão ou do tempo do dia-a-dia. Já não sei de calendários, parece que conheço mais urgências. Também me sinto meio exausta, catando cacos, pois ainda à espera. Algumas respostas de trabalho não vêm e a fé teima em dizer que será agora. Todo dia é agora, assim acontece à pulsação dos ignorantes. Quem não é proprietário vive de vender a força de trabalho, simples assim? Desencaixo deste mundo, sei lá, tanta guerra. Às vezes acordo forte e corajosa, noutras sou bambu de tanta desilusão, e assim a vida oscila, entre encontros e desencontros. Nada mais humano, um registro.

 

Por que sou tão alma? Escutei a palpitação da terra durante o dia. Sei lá o que pode ser isso também. Alma, espírito, natureza, equilíbrio. E se sentisse o porvir? Nada mais importa quando se está vã, num louco porre de madrugada. A lua endoidecendo no céu e a gente babando por muitos motivos. Tantas são as maneiras de se idiotizar! E de sentir a força da noite, bela em sua naturalidade. Por que tão corrompidos de nossa natureza, ou algo semelhante?

 

Conversava com meu sábio amigo Giuliano Agmont que discorre seriamente sobre o imponderável, outras esferas de compreensão da existência, a crença nos seres humanos como vírus planetários, parasitas mesmo. Predadores da grande célula que é o planeta, o ser vivo tão maior que nós e tão menor que o universo. Conversávamos sobre a vida e a existência no intervalo do trabalho, ele editava uma revista e eu cuidava de olhar tudo, revisando ponto por ponto. Quase bordadeira ou quase dissecando cadáveres. Desossando as palavras e seus contornos, os desenhos que entre elas se interpõem – uma vírgula mal encaixada, os sinônimos, conjugações, um hífen fora de contexto, troca de vogais, consoantes e lá vai perícia!

 

Artistas são mesmo estranhos em todas suas facetas. Há os que fazem artes no êxtase, no estresse do trânsito, em meio a choro de bebê e crianças chorando, ou no meio do passeio à toa, numa rua qualquer - no momento mais inesperado da vida - lá pode estar um artista. Vestido de tudo, de sisudez, de mulher, homem, de exotismo, de adolescente, criança... digo o ser humano. Porque vestes de pano podem ser muitas, não há comportamento previsível, não há gosto que baste, não há feio ou belo que decifrem.

 

Há um silêncio na noite, quem toca? Um grupo de mariachis? Pode ser uma paisagem antiga, aquele menino na varanda de uma casa de praia a tocar “Chora coração, ouve só meus ais, eu não posso mais, chora coração...”. Era lindo e se foi pra ficar. Naquela época eu lia o Evangelho Segundo São Mateus e ele estudava violão. Em certa noite caminhávamos pela praia, quando ele, lento e deliciosamente, caiu no tombo da areia. Veio uma onda mansa, e ele relaxado, e ela tudo nele molhou. Sem querer, acontece. Existe a questão do ritmo, do depois, do que resta. Resta a imagem dele encharcado, chateado de frio, sem entender bem ou mal o que tinha acontecido, e eu a espumar gargalhadas. Tenho boas lembranças e cegas esperanças, sim.



Escrito por porque escrever é preciso às 01h30
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Pablo Picasso - Weeping Woman

...tenho um lagrimário extraordinário...

...e assim vou te querendo pelos cantos...

Amor y Camelias

 

Y si pudiera hacer con que me vieras un instante

Y si al menos dejara de pensar en tu ausencia

Y si no encontrara tu fotografía risueña

Y si la cicatriz grabada hablase

Y si tus manos no persiguieran todos mis rincones

¡Ay amor ! ¡Ay de mí ! ¡Ay !

¡Y si las Camelias resolvieran no sé qué!

Me desperté para matar y morir

¿Dónde estarás en esta tarde?

Y si la voz lacónica atiende la llamada telefónica que no quiere

¿Y si yo imaginara que tú no conoces el día de mi cumpleaños?

Soñé que me traicionabas y te odio por un día

Y si en las conversaciones hubieran malentendidos entre nosotros

Y si cuando volviéramos a estar juntos yo...

¿Y si tú te arrepintieras y quisieras arrojar las cartas por la ventana?

Y si tú dijeras ¡Ay amor! Y yo...

Amor, la luna batía y no alcanzo…

 

Tradução do original (em português): Ana Luisa Duran Reyes



Escrito por porque escrever é preciso às 13h22
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