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Por isso eu também canto
25-10-2006

Noite de céu limpo e nuvens diáfanas. Aos poucos eles vão chegando ao bom bar amigo, Até que Enfim, vulgo Pé na Jaca, onde no primeiro dia da semana costuma acontecer uma deliciosa roda de música. Depois de um dia de trabalho Fausi, Rui Weber, Márcia Fernandes, Nilce, William (...), todos chegam para descansar. Um deles abre sua pastinha, tira um repertório com o nome de compositores, intérpretes, datas, lembranças.  William afina o violão, dedilha algo, enquanto as pessoas se cumprimentam, ajeitam-se nas cadeiras, comenta-se o frio da cidade, essa estranha primavera. Conversam sobre algumas composições de Vinícius, Torquato Neto, Lupicínio Rodrigues, Zé Ketti e tantos mais. Finalmente o violão de sete cordas de Rui firma a roda, entoando canções, sem espetáculo, simplesmente a delícia de cantar e rememorar prazeres. Nosso querido Tião, entre um amigo e um cliente, abraços e saudações, vez ou outra vinha nos deslumbrar com suas interpretações. Entregou-me um pandeiro que ficou mais no colo que em serviço, porque às vezes bastam violões e vozes. A simplicidade dos encontros e a memória da música brasileira são assim, acontece.

E cada um leva a vida como pode, nem todos ‘músicos profissionais’, um é corretor de imóveis, outro faz salgadinhos para os bares da região, tem o estudante, a escritora, a professora de flauta. O que nos une é o prazer de fazer música e abrir gavetas esquecidas. Onde a melancolia e a nostalgia não são condenadas. Onde não há que se gritar os instrumentos para ser ouvido. Onde há tempo para reviver o tempo. Lembra daquela? Não sei se lembro, mas puxa aí, vocês me ajudam com a letra. Conseguiste magoar quem das mágoas te livrou, atiraste uma pedra com as mãos que essa boca tantas vezes beijou. Quebraste um telhado que nas noites de frio te servia de abrigo, perdeste um amigo que os teus erros não viu e o teu pranto enxugou. Mas acima de tudo quebraste uma pedra... Então há espaço para as histórias. Tião nos canta a resposta a essa música de Herivelto Martins, feita para Dalva de Oliveira. É de Ataulfo Alves a resposta, ‘Errei, Sim’, salvo engano. Amor conturbado, por sinal. E assim vão se desfiando causos de músicos, compositores, boemias, felicidades, amores e desencontros. Feito o cotidiano e suas surpresas.

e continua no

http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=156



Escrito por porque escrever é preciso às 16h32
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Quando ensurdeço

 

Tenho uma página aberta sobre os ombros. Nem branca ou vazia, apenas página que viram outras. Um rosto gravado para esquecer. Olhos molhados encharcam os passos do anoitecer. Feito turista, caminho pela cidade de janelas fechadas. São tantos vidros fume, confundo entradas e saídas e buzinas, tanto faz frio como asfalto nesse oceano de sapatos que pisam meu ventre. Procuro um horizonte, namoro casas antigas do bairro, os grafites nas paredes, velhinhos a conversarem no portão, cachorros se lambendo, crianças jogando bola, ah! Saudade do futuro. Mas os planos retos, quadrados e retângulos dos edifícios me desencantam. Prefiro as circunferências arquitetônicas que só um artesão sabe esculpir. Você sabe o que quer dizer paixão? Não me importo com alguma sujeira nas fachadas manchadas, imundas, o pior vem mesmo é da gente com a gente.

Tenho o olhar de costas para o universo das afeições. Meus dentes incomuns reclamam a tensão sem descanso. Quero voltar a sentir a pulsação da terra, seu ritmo na dimensão do que procuro. Quero beijar as águas, embebida. Busco a generosidade da natureza, a visão da Serra da Mantiqueira e os movimentos pacíficos dos coqueiros. O sereno do cerrado, algum ar puro que me penetre os poros, o gosto verde das plantas, o choro das samambaias. Suspiros de Brasil. Quero o negro azul de um vasto céu que me traga novamente. Você também se dá um beijo, dá abrigo... Acordar meio sem porquê, meio sozinha, meio quente de sal no corpo. Quero o escândalo da primavera! Ninguém é inocente, então a noite ganha sopro, sabor de pele e pandeiro. Há o momento dos acordes perfeitos, melodia e harmonia em conexão com os sentidos.

Sai da minha fumaça, por favor. Não te quero acontecer. Pára de pisar na minha sombra prolongando lembranças. Deixa de aparecer nas horas íntimas, destrança teu intruso abraço. Por que no meio do café, entre salgados ou doces, você? Corro tanto para te perder e ninguém avista. Tenho calos na íris, bolhas na boca, e nada ainda. Não era amor, era? Calma, pede o silêncio, deita tuas dúvidas no orvalho. Acende uma vela, qualquer coisa urgentemente. A ponto de verter novamente. Mordo maçãs e você entra no meu hálito, quanta indecência cabe nesse mundo. Sai de trás da porta, tira as mãos de mim. Minha fragilidade agora atrai lábios que não desejo, apenas empresto. Velo à noite para não mais te encontrar, preciso dormir e assaltas minha insônia.

Madrugada passada, quando fui à Índia escavar areias você estava em Buenos Aires, soube à distância, acho que estou me descolando. Porque chegamos na hora errada, como tinha de ser o destino, eu a pé, você de avião. Muitos anos haviam se passado e tu agarrado aos velhos hábitos. Finalmente à parte. O telefone não toca tua música, mas ainda há uma bruma espalhada pela casa. Teu nome nos rasgos das roupas. Joguei tua escova de dente no meio da areia do gato para não sentir cheiro bom. Haja o que houver não espero por ti. Não quero saber o que foi ou podia, devolve meu sol, meu riso, a leveza que eu guardava em algum lugar. Ninguém se deita em minha cama como eu à procura.



Escrito por porque escrever é preciso às 16h46
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Ph Felipe Baenninger

ver mais em www.flickr.com/photos/hillbilycat

 

Quero voltar para casa e sentir calor. Despir panos cinzas e chegar. Arrancar os tijolos das paredes e deixar. Ser alma quente no sofá, corpo estirado e pernas ao ar. Águas passadas não estilhaçam as janelas, nem vento, nem vidro. Sempre no meu sempre o mesmo encanto. Inventar nos olhos o cinema da vida, cobrir de saudades quase sem querer. E depois o que haveria de ser, um canto. A esse tempo, do abismo não surgiram fantasmas, algum grunhido e sono profundo. Uma sombra se veste apoiada sob pés de barro, e assim novembro, dezembro. Andava para trás e entristecia pela frente, que nada, não há meia noite, há lua cheia e chuva respingando como neve derretida.

Não pronunciemos as palavras reditas, essas têm contornos na imaginação. Assim como as letras em compotas digeridas, ainda que breves doces, ácidas. Somos vastos. É preciso como a métrica na construção da casa. É preciso reinventar os sentimentos de imagens, ações e ferraduras. Linha e agulha na ponta da língua dos dedos. É preciso não saber dizer tudo, ou nada, calar gotas pra se lançar. Não que estanque, nem que vertente, é que retesa e transverte o gozo momento. De olhos fechados agarro a melodia do planeta em rotação, porque domingo tem licença para nublar, podemos sol e maresia no jazz da estação. Domingo é dia santo sem milagres à espera, o jornal ora deitado sobre a mesa, murmúrios entre livros e manchetes. Enxugamos as pendências, lustramos os ideais, preparamos a cama da semana: ‘mande a consciência pra lavanderia’. Pela janela se enxerga o imenso tempo, na próxima calçada super heróis sem distintivos constroem metrôs, lixeiros atletas à vista retiram nossas porcarias, mulheres de toda bronca acordam cedo, dão de mamar, fazem e desfazem sem descansar. E há os artistas operários do dia que vier que venha. À prestação alguma felicidade ondular.

 

*SP, 12 de março – 2006.



Escrito por porque escrever é preciso às 02h20
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