"Il y a toujours quelque chose d'absent qui me tourmente"
frase de uma carta escrita por Camille Claudel a Rodin, em 1886.
(Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta)
Noite, ontem. A caminho de algum lugar, tropecei. Era para ter quebrado a cara, porque nessa altura nem teria mais rosto, e os reflexos foram mais ágeis. Embora a falta de emoções pulsantes, encontrei a vergonha na rua escura. Ao chegar, subiu-me um chorar por tudo. Por mim, aos olhos, quase não contive. Engoli os ruídos na garganta, águas não rolaram. É um aniversário, ela me dizia, você não precisa conversar com ninguém, fala apenas comigo. Impossível, sem energias para observar e escutar a gente vestida de hábitos e gestos. Vou-me. Quero chorar sozinha, sussurrei num canto qualquer. Esfolada, tarde depois vim saber dos joelhos. Doeu-me a queda.
Então fiz o que sentia. Um velho som gasto, sem berros, sem escândalos. Líquida cor de âmbar, canetas, papel, letras. Sartel. Lia ao contrário, nem assim o chorar. Por que conter? Para sobreviver é proibido aparentar fragilidade, insegurança, matéria do nada, feito aquele homem do Bestiário a vomitar coelhinhos felpudos. As coisas que deixamos de fazer, dizer, passo por elas todos os dias. Chego em casa e elas me esperam no sofá, derretidas, à vontade. Dobro a esquina, vou à cozinha, e lá estão os medos na pia. Saem das torneiras. Cubro o corpo de esperanças e saio pela tangente, à margem do mirar. Entre o velório e a igreja.
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