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A Espera
04-10-2006

Ontem, anteontem e ante anteontem o mesmo. Ainda sem respostas. Sem respostas aos e-mails enviados, aos telefonemas, aos recados, às mensagens instantâneas, sem respostas. Não sei se até quando terei comigo essa afoiteza, ansiedade latente, que tantas vezes me faz dizer ‘basta, não espero mais!’, quando nem esperei o suficiente. Ao que não posso declarar fim, chega, vou-me embora, no entanto, sigo à espera. O imponderável. Pergunto-me qual seria o tempo exato das esperas. Quantos dias, semanas, meses ou anos? Sim, há esperas e esperas dirão os sábios.

Tem a pessoa que espera o ônibus, o trem, sabe que ele chegará e só pode ter se atrasado. Aí existe alguma certeza, a de que o fato ocorrerá. Tem também a proposta de trabalho que enviamos a quem nos pede, o mais pronto e rápido possível, mas o requisitante nos deixa dependurados durante dias. E aquele que se empenhou, imprimiu o ritmo da urgência à sua vida, para atender a tal solicitação ‘o quanto antes’, que pouco dormiu, muito pensou, pesquisou, avaliou e se dedicou, depois deve se sentar e esperar. Então é preciso se desfazer do que pede soluções imediatas, não se desesperar, não avançar os sinais. Não telefonar para ‘resolver a questão’, escutar logo sim ou não, ter alguma resposta e voltar aos costumeiros batimentos cardíacos. Porque o coração pode nos desequilibrar.

a continuação em http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=148



Escrito por porque escrever é preciso às 16h15
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Ainda é Tempo

Houve uma época, entre verões e invernos, em que mantive uma coluna de crônicas e textos livres no site do Opinião Pública, administrado por um antigo amigo de infância. Que coisa, de pensar que nos re-encontramos via Internet. Emiliano é pessoa mais que pessoa, é gente. Assim que nos re-conversamos, mais de dez anos depois, ele mencionou o tal site em criação e eu – de pronto – sugeri uma coluna de crônicas. Não havia, ele criou. E não é que ‘deu certo’?

Dali nasceram textos, amores, des+agravos, discussões séríiissimas, cisões, amizades etc. Gente de toda parte, do Pernambuco, Brasília, SP, Ilhas Maryland, e sei lá mais quantas paragens. Casados, descasados, doidos, aventureiros, jovens destemperados, profissionais comportados, ‘de um tudo’.  Estou certa de que para estas pessoas – e eu – foi mais que importante, compõe nossas vidas. Mas o Emi resolveu desativar as coisas como estavam, porque já tinha uma atmosfera ruim de família em desacordos estruturais, gente batendo panelas, jogando roupas pela janela, ninguém a escutar ninguém, coisas do gênero, e começou a reinar um clima estranho ‘na parada’. Comunicou-me sua decisão e tive que concordar. Fica a saudade na memória afetiva.

É que tinha interlocução, fosse para criticar, contemplar, acrescentar, destruir, temperar, enfim, havia conversa com os leitores. E também entre escritores e colunistas do próprio espaço. Cadê eles? Não sei mais, sem notícias. Dessa história me brotou um grande amor que – como tantos outros – se foi. Estamos por aí, vemos nossos nomes, luzes verdes, vermelhas, laranjas, mas algo se quebrou. Desenredo, desencanto. Também.

Mas o caso é que pode se criar vida e emoção na web. Por exemplo, assim como havia uma espécie de cotidiano, um clima de cozinha no site Opinião Pública, existe uma cumplicidade – ainda que aparentemente impessoal – entre ‘blogueiros’. Chegam por diversos caminhos, de leituras em leituras, por mãos de amigos, por curiosidades atávicas, ou a busca de algo que não se sabe. E é bacana ler os comentários, críticos, contemplativos, o que seja, mas saber que alguém ali esteve e leu os textos. Sentir algo - a presença. Muitas pessoas não o fazem - os comentários – e é uma pena, porque fica um silêncio grave, sei lá. Tem quem não ligue, mas eu, confessa que sou, ligo.

Dia desses recebi o e-mail de um leitor, blogueiro em inícios de escreveres, o Maurício Rocha. Na carta manifestou sua solidariedade ao meu estado de ‘mulher escritora extra-sensível’. Destrinchou as crônicas mais recentes que publico no site da Geração Editorial, comentou uma a uma, assistiu ao filme Lugares Comuns, dividiu um pouco de sua vida, suas angústias, identificações, seus passeios na busca do sentido da vida, talvez. Sobre a questão da profissão – ser escritora – até mencionou uma história curiosa de conversa entre surfistas, quando um pergunta ao outro se também é surfista e a resposta foi: ‘É, também faço isto com as ondas’. Metáforas.

Ao comentar a vida, Maurício conta que está a caminhar pelo teatro, música, pintura e tal. Assim também tem sido comigo, aventureira no palco da vida. Dá fome, dá sede, ânsia de viver exaustivamente. Mas também cansa, tem uma hora em que se faz necessário o descansar dentro da gente. Porque lá fora é o que sabemos, aquela zoada. Muitos a correrem atrás do próprio rabo.

Por essas sintonias perceptivas, outro dia minha amiga Marieta considerava que a maioria das pessoas sempre ‘tem que’, até durante os momentos comuns, entre amigos, família, amantes, as pessoas não se separam desse ‘ter que’ desmedido, desenfreado. Às vezes nem sabem o que ‘têm quê’. A impressão é a de que não vivem os momentos, porque sempre têm que estar em outro lugar, talvez, fazer coisas seguintes, pensar no amanhã, no depois. Desse jeito qual é o sentido da vida?

Conversávamos sobre o não-estar de tantas pessoas, o não se entregar ao outro, à conversa, à alegria, aos toques do coração, à simplicidade, era isto. Entre outros assuntos, claro. Gente que fica dependente ‘das coisas’, dos telefones, do relógio, do carro, cada um com suas coisas. Coisificados, diria meu pai. E se esquecem das relações humanas sensíveis, de amizade, de amor, ou da natureza, escutar o passarinho, mirar la luna, apreciar as paisagens.

Em busca de sentidos, então, Maurício me comoveu ao comentar uma das crônicas – Traziam Brisa e Chuva no Olhar –, e escreveu assim: Não sei direito o que dizer sobre esse texto, você escreveu coisas que me tocaram, me deu vontade de chorar, mas não consegui, entende? Por isso escrevi no meu comentário a letra daquele samba gravado pelo Paulinho da Viola: "Quero chorar / não tenho lágrimas / que me rolem nas faces / pra me socorrer / se eu chorasse / talvez desabafasse / o que sinto no peito / e não posso dizer...".

Honestamente, senti-me menos sozinha nesse mundo solitário do criador. Feliz, não apenas pela aproximação da alma de alguém, mas porque ele se sentiu à vontade para conversar escrevendo um e-mail – carta.

E assim fazemos amigos, humanizamos um pouco as relações, ainda que pela Internet, estendemos os laços, os abraços, e é possível mantermos a sensibilidade, engrandecer nossas vidas, sonhos e visões, embora o mundo cão. Ganha sentido ser e estar na vida através do outro, em relação. Ao escritor pode ser mais que vital, é o que muitas vezes lhe confere existência.



Escrito por porque escrever é preciso às 13h32
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