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É preciso confiar no indizível, para não dizer a rima – o invisível. Mas é assim mesmo, às vezes tem gente que confia no impalpável. Talvez seja intuição, ou o brilho e o encantamento. A aura da pessoa ou do momento que podem se confundir para esclarecer depois. Depois que nos encantamos e aproximamos e dedicamos afeição, dedicação, cuidado, atenção, desejo, calor, calor.

 

Claro que tem os dias destemperados, as noites em claro, as conversas inócuas, as iras repentinas, histerias, neuroses, domínios, rebeldias, enfim. Talvez a luta por ter a razão e acabar sozinho no quarto, arrependido. Isso sempre está e esteve, ou tem quem dissimule mais, sei lá, mas sei que entre dois amantes apaixonados nada vai além da idealização. Enquanto se idealiza o reino está na convivência, no estar junto, no dormir, no acordar, no ‘durar as coisas na tua presença’.

 

Depois da idealização. As conversas não dizem mais as mesmas coisas, os dias são cada dia um dia, ora isso, ora aquilo, aqueles cinco minutos que antes eram coloridos, sorridentes, que destampavam alegrias em meio à guerra das agendas e deveres, transformam-se em horas de desentendimento. As despedidas não sabem mais ser da mesma maneira, a saudade se dilui pelo corpo e nem se sabe se vai ou se fica. Não sei se queria a boca ou o silêncio, talvez o estar sem ser. E algum calor de volta? Como, se nem o tempo coopera?

 

Então é isso, passo meus horários, os acontecimentos sofridos do dia de cão, e tchau. Como não dá mais pra saber se tchau é tchau, ou vem, ou volta, ou é isso mesmo, quero estar sozinho, como os diálogos podem ser tão estranhos? Queria ter dito o que não consigo, porque tenho medo da reação, porque não reconheço mais o outro, porque a idealização se foi e estou de encontro com a pessoa. Que pessoa?

 

Estamos nos conhecendo sem tempo, desse jeito meio de canto, de viés, nas frestas. Não sei onde fomos parar. Onde estamos, tudo confuso. Não reconheço. Queria que você dissesse que sente minha falta, daí eu ia ao teu encontro, ao mesmo tempo em que eu queria simplesmente ir. Mas tenho medo da tua reação e não suporto rejeição. Não tenho escutado saudades da tua parte, estaria surda ou seria fato? Não reconheço. Perdi a sensibilidade da verdade em nós. Procuro uma entrega, nada. E tampouco me vejo, então não sei como estou – se perto ou distante. É que penso e sinto tanto, mas não sei dizer.

 

Queria muito me aconchegar contigo, mas nada vem do outro lado, então fico. Não que espere ser literalmente dito, mas espero alguma emoção. Não vem emoção. E fico sem saber se é simplesmente (e tão duro que é, sei) cansaço ou opção por deixar assim – corpos distantes. A língua metálica da distância simulada, próxima da indiferença. Desentendo o que acontece. E não sei ficar calada, como também não sei me expressar direito. Ficamos meio repartidos, assim de repente. Não reconheço.

 

Queria ter ‘a gente’ de novo. Mas talvez não dê tempo, é tarde, é noite. Às vezes sobe uma onda, parece que vai afogar, lembramos das últimas alegrias, sensações, ah! Dá-nos fôlego para seguir. Mas às vezes estanca, é maré baixa, é maresia de tempo ruim. Ou sei lá, tempo morto, adormecido. Tempo de não desejar, não querer, tempo de esgotamento. A cabeça a milhão, aquilo que antes cabia em gavetinhas vem à tona em chafariz. Abriram todas as portas, escancararam as janelas, arrebentaram as correntes do mundo cão. Confusão. Muita coisa pra dividir na mente. Pressão (opressão?). E ainda sentir? Sei como é.



Escrito por porque escrever é preciso às 21h14
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