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Tem sempre algo de insatisfação. A cabeça gorda e não ditos e segredos escorrendo das pernas aos pés. A pulsação do medo, a síndrome do pânico, a depressão, a melancolia. Coragens represadas, ou não. A mesma coragem de calar quanto gritar. Por tudo, nada, o pequeno que se agiganta, o enorme que se acovarda.
Tem um não estar, a falta de lugar no mundo. O tropeço antes de adentrar a porta que tudo abriria. A profissão mal sucedida, a vocação mal empregada, o nariz amassado contra o vidro. O bafo das dores conhecidas, desgosto em agosto. A falta de paciência na espera, o desconhecimento do tantra. Y me respira algo. O ar que por vezes engole a inspiração.
Tem o tempo a voar e gente a rastejar. Às manhãs despertar esperança e, ao final do dia, deitar com a desilusão. O espaço em que não cabemos, a poluição aos olhos, a espera da ternura e da tranqüilidade. As sensações que não voltam, os arroubos desmedidos, a loucura da madrugada, o riso lânguido, a boca encharcada de orvalho e fugacidades. Enquanto passam as horas, a vida a se oferecer na cegueira, entre os nós da alma e o tom que não se pronuncia. Espíritos revoam. Hei de fazer um acordo contigo, no tempo da sabedoria, no tempo apaziguado, no tempo de enxergar o tempo.
Tem sempre essa ausência que não chega a ser saudade, um fundo de tela descorado que ninguém toca ou vê. Queria tanto ter ido a Cuba, antes, mas agora. Palomas que no veo más. O espírito revolucionário abandonado nos discursos repetidos, na falta de ideologias, no fog das campanhas eleitorais. Panorama cinza, meu bem, acinzentado.
Tem um lamento ancestral na neblina dos morros distantes. Um cigarro aceso no escuro, ruído de taças e corpos santos que perderam a virgindade. E, também, essa enorme alegria em amar como tem sido, o que me retira da solidão maior. Talvez. Ou não.
Tem o despropósito da ordem financeira global, as guerras que se proliferam, o excesso de mão-de-obra, a deseducação imposta aos povos, a alienação do trabalho escravo, o subemprego, a dilapidação dos recursos naturais, as quotas de gás carbônico, a mata atlântica, a exploração reinante, tem tanto.
Tem os ciúmes nas cartas, em fotografias, nos gestos desarticulados, nos diálogos descuidados. É preciso perder as ilusões, vencer os medos, criar a outra e sair por aí. A vontade de chorar, fundo sem fim, quando vem. O choro que se completa aos soluços, quando vem. O ego capenga se escorando nas paredes, tem.
Tem o telefonema que de repente nos tira do chão e levanta sorrisos, seria primavera? Mas logo frio, porque felicidade é brisa quando se foi. Sem esquecer que o arrependimento é um sentimento tardio.
Tem as boas mordidas, cócegas de brincadeira, lambidas de cachorro, risadas e paciências. Que gosto tem o riso? Não sei, já passou, você o encontrou? Sim, bem aqui, no teu peito. Ah, então chega mais perto, vem.
Tem a lembrança do verão de 1997, ou 98, ou 2000. Saltos da memória em cinco minutos de caminhada pela rua, quando paira um perfume antigo de sabonetes, viagens, estradas e aquele rosto, parece tão conhecido. Dorme nostalgia, dorme.
Tem as pessoas que chegam e vão sem aviso, os amigos que não mais procuramos, desencontros na agenda, sei lá. Os bebês continuam nascendo, casais acontecem, doenças matam ou passam, mudanças se anunciam em cartões, canções, arte e poesia, esperanças no país do futuro.
Escrito por porque escrever é preciso às 12h01
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