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PalenaDuran


outro dia

 

hoje de manhã, enquanto me vestia, pensei nele. escolhi uma calça leve de cor suave, própria para o calor e a vontade de assim estar. de acordo com o espírito, então, ao invés do cinto, enfeitei o passante com um lenço cor de vinho tinto. gosto de cores e combinações, sim, coloridos podem causar sorrisos às vistas. qual blusa? não quero alça, nem nada justo, mas que dance um pouco com o vento. assim como os cabelos quando soltos, a bailar. mas que coisa, também pensei, ele nem está aqui, nem nos veremos hoje. deve ser o desejo, a saudade, a imaginação. é, porque quando se gosta desse jeito amante de querer é inevitável o rememorar. imaginamos o riso como será, ou o beijo seria, ou foi, o jeito de abraçar, a maneira de andar, as mãos como se sentem, olhar atento, repousado, ou difuso. às vezes a gente até fantasia coisas que não aconteceram – talvez, ainda - em relação a algumas pessoas. tenho por bom ou mau hábito o fantasiar diálogos, encontros casuais, telefonemas, surpresas, presentinhos debaixo do travesseiro, sei lá, sair do plano previsível. da vida à arte, e vice-versa. porque também tem a questão do 'belo', belo, quanto quero. 

mas, então, vestia-me pensando em como ele me veria. não sei, não faço idéia, aliás, nunca se sabe inteiramente o que guarda o olhar de alguém. ele está viajando e não telefona, deve ser por isso que exercito mais ainda a imaginação. preciso lembrar para não esquecer, senão o reencontro será estranho. nem saberei como era, não faço mais figura, sei lá, meio confusa nessas questões de distância. corpo de tempestade? também, também. outra coisa é que quanto mais fantasio, menos a realidade se me assoma. claro que ao reencontrá-lo não seremos mais os mesmos, principalmente quando a presença não se anuncia. não é pelo tempo, ou somente a falta de respostas, mas é que ultimamente tem sido... enfim. o que o tempo dirá? não se sabe, a não ser vontade, o desejo, agora.

às vezes outros pontos conformam os sentimentos, então é preciso enxergar a diferença entre desejo, necessidade e vontade. nada tão simples, porque sentimentos nunca são puros, ou seja, são feitos de experiências mundanas. terrenas. alguns escolhem gostar apenas da beleza, o que se contempla, então o sentimento se dá por uma fruição estética. outros escolhem o que lhes parece, ou porque são auto-admiradores, ou porque pode parecer mais fácil lidar com o que já se conhece. a si mesmo. ou não. há quem escolha um parceiro pelos desafios que ele ou ela representam, pelo estímulo, por certa curiosidade do que não são e gostariam, ou não. enfim, a contar as últimas novas afetivo-emocionais, a possibilidade de maior convivência, uma amiga me lançou a questão: mas você precisa saber se é desejo ou necessidade! então pergunto a ela, ‘enquanto psicóloga’ que é, mas como saberei sem vivenciar? preciso viver, experimentar, vivenciar. algumas escolhas, sim, podem ser feitas no plano racional. mas em relação aos sentimentos, paixão, amor, sei não, vem tudo cachoeira. até que se esclareçam os ramos que formam os galhos, e os galhos que dão forma à árvore. nem a amiga soube desaprovar minha escolha: viver (navegar?) é preciso.

escolhi a roupa, fiquei de bem com a quentura do sol, caminhei descontraída, triste e feliz num mesmo tempo, fiz amigos de passagem pelas ruas, no ponto de ônibus, na padaria, na mercearia. pois é, às vezes a gente escolhe como vai ser o dia. ninguém obstruiu meu sorriso, essa ingênua alegria feita de vento&sonho&chuva&girassol que por vezes impulsiona.

 

SP, 10 de agosto



Escrito por porque escrever é preciso às 21h01
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From Eliana Castanho, madrinha querida, de seus olhos um olhar de sonhos sonhados acordados. Many thanks, gracias.

"Nautilus Children
The Nautilus Boy is a tribute to Amy, Saulo, Rodrigo, Palena, Eduardo... and anyone who believes in imagination".
http://daydreamer263.tripod.com/daydreamer/index.blog?entry_id=1486247 



Escrito por porque escrever é preciso às 13h01
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Meu bem, inventei um jeito de viver...

Vivo a recriar todos os dias o jeito de viver e.

assim

fico vivendo

a viver a invenção de viver todos os dias.

Será que desse jeito também vale?



Escrito por porque escrever é preciso às 11h56
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A quem partiu

 

Não se assuste se me arremesso assim, talvez não devesse. Faço gratuitamente, guardadas as devidas expectativas, e não quer dizer que fui inteiramente tua. Inteira amante tua já fui. Tenho meus planos secretos, não quero mais me casar, apesar de dias sim, dias sim de querer dormir junto. Sou caudalosa, excessiva, e no fim do mundo trago um infinito de outras vidas. De tanto sonhar me separo de ti. Não quis tudo contigo, sei de quereres solitários, planejei muitas coisas, penso também em viajar e não deixar endereço.

Porque o outro não é razão de ser de um, não, não acredito nesse tipo de união. As alegrias e os prazeres que nos oferecemos me faziam forte para ser mais sozinha, como o somos, ao ar mais distante na fonte das fantasias, coisas que você nem sabe. Posso dar dez passos adiante como recuar vinte, prática antiga, e por isso tive muitas paixões, grandes e pequeninos amores. Você não pergunta, deixou de perguntar o essencial, aqueles que pouco indagam não se aprofundam. Entre inseguranças, muitas vezes meto os pés pelas mãos, por vezes faço perguntas erradas para pessoas equivocadas, amo ao revés, falo demais aos que pouco escutam, não peço quando devia, não meço quanto deveria. Apesar de tudo, estou inteira e integridade continua sendo convicção.

Sem ressentimentos, então. Você foi embora porque quis, achou que era o certo e talvez eu esperasse. Mas andei tanto por cima de mim, amassei todo o corpo, pisoteei os pensamentos para que parassem de produzir a saudade em escala industrial, peguei o coração doendo, sangrando nas mãos, e conversei o que nem imaginas. Ainda hoje penso nesses dias ao me aproximar da tua lembrança, custou-me longa hemorragia até parar de te sentir pulsando.



Escrito por porque escrever é preciso às 02h08
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Para isso precisei te recontar inúmeros dias e noites, às crianças e aos adultos, rememorando doçuras e traições. Os adultos te chamaram de muitos nomes, disseram-te medroso. Proferiram as coisas ruins que eu precisava ver, que não valias a pena, declararam tuas omissões e covardias. Desiste, pediam, pára com isso, pega outra estrada, toma um banho de mar para lavar a alma, esse aí é mais um errante no caminho. Nada fácil de desentortar, mas não tenho pudor de encarar e me esgoelar às raias da rouquidão. Num primeiro momento tomei todos os banhos de chuveiro, em busca de levar tua pele da minha. Escovei os dentes dos teus dentes, palavra por palavra, arranquei meus cabelos dos teus, vigiei os passos que traziam tuas manias e, aos poucos, fui descolando teu corpo do meu na cama.

Como as crianças são mais crédulas, bondade ou ruindade, sempre diziam que cedo ou tarde voltarias. Falaram também que gostavas de mim, mas não sabias o que fazer comigo em mim, comentários confusos e talvez verdadeiros. Em algumas passagens de nossas nostalgias as crianças choraram, precisei engolir desconsolo para poder abraçá-las e enchê-las de esperanças. Elas não podem deixar de sonhar, isso nunca, apesar do inevitável da morte em certas alegrias infantis. Pediram teu telefone e, para evitar essa dor, tive que transverter o significado da lealdade e do confuso respeito. Elas pouco entenderam as palavras complicadas que precisei usar, devem ter absorvido algumas de minhas fraquezas, não insistiram e seguiram impetuosas pela vida. Só espero que, com isso, não tenham aprendido a pronunciar ou reproduzir nossas mentiras.

Vez ou outra, quando me viam acabrunhada costurando rasgos das meias verdades, pensativa de olhos nublados no horizonte, puxavam meus braços e me chamavam aos jogos. Foi numa dessas brincadeiras despretensiosas que não te vi mais na paisagem. Antes, reencontrei as flores que nos demos e elas não mais te pediam.

Durante o sono profundo as crianças também cuidaram das plantas, cantaram as músicas da alma, alimentaram a fome que eu não sentia, aninharam-se no meu colo arranhado e fizeram festa pela casa. Apesar do teu silêncio fúnebre elas sorriam, conquistaram amigos, inventaram brinquedos e novos impulsos. Quando vejo seus rostos é que me dou o tempo de quanto passou, suas feições mudaram, as roupas já são outras, elas cresceram e estão quase irreconhecíveis. Surpreendentes como são, ontem me pediram uma fotografia. E você não estava mais ali.



Escrito por porque escrever é preciso às 02h08
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