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Reversos de amor e paixão
Estou apaixonada! Quantas vezes não fomos vítimas ou escutamos essa frase em vida e ficção? Então paixão é ebulição química sem nortes, está ao sul, ainda que possamos ser protagonistas ficamos sujeitos (sujeitados?) aos destemperos de toda sorte. Três da manhã, o telefone toca e, escrava do desgoverno do coração, sabia que era ele. Meu amor, que saudade! Ainda que confundindo o efêmero com o duradouro (porque semanas depois foi aquele chororô da desilusão), lá foi ela preparar uma trouxinha para encontrá-lo na madrugada. Sonâmbula inebriada. Paixão é sobrenatural, total falta de critérios, o patético mesmo. Naquele momento ela nem aventou que ele poderia ter telefonado antes, inclusive tê-la convidado ao jantar do qual viera, fixou-se no encantamento oblíquo. Depois do pé na bunda é que realizou as desventuras, outra crença mal sucedida.
e a continuação em http://geracaobooks.locaweb.com.br/
Escrito por porque escrever é preciso às 16h55
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Esquecer a dor dos nervos do corpo
Os dentes querem me trancar a boca, 600 quilos de força a cada rangida, a todo mastigar de um sobre o outro. Declararam guerra, asa sul e asa norte em combate por desequilíbrio externo. Nossos dentes, soldados do amanhecer ao anoitecer. Paus mandados, cognição latente, corrente sangüínea a possibilitar o envio de mensagens, rio à nascente. Cérebro, massa encefálica, cerebrina, cerebelo, comanda meu corpo - máquina viva sem salário por funcionar devidamente e não engordar a fila dos doentes.
Sem querer complica-se a situação dos dentes. Têm a faculdade dos conhecimentos, a absorção dos ventos, a sensibilidade mal exercida e o implícito, tácito de ser. Reclamam as coisas do mundo em mim, doem à poluição sonora, acusam meus nervos, tremedeiras, espantos e mornas alegrias. Dizem que sou carregadora de pedras e proclamam, pressionados trabalhadores na Serra Pelada, formigueiro cavando a terra da terra da terra. Aflitos, dentes ansiosos, agressivos, e a massa em desalinho.
Denunciam o viver, quando noites trás noites mal dormidas dão de sensibilizar as gengivas, e me empurram à dor, à força de apunhalar a caixinha notívaga invertebrada. Ossos de doer dentro. Esqueleto apedrejado pela sinusite ou, às vezes, conseqüências de nariz mal aproveitado.
Escrito por porque escrever é preciso às 00h48
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O transitório reverso
Novamente um não saber maior que tudo. Não saber o que será, ou como, esse viver. Em qual tempo, quando, de que maneira, esse viver. A casa onde viverá a mulher que se quer financeiramente independente, será? Não saber se a rua que é escura, os medos muito claros, ou o verão dentro ou fora. Não saber o que fazer das mãos, pesadas de impossibilidades, ainda farão doces e revoluções? Guardarão sentimentos aplacados debaixo das unhas? Não saber aonde imprimir os esforços, e a raiva das injustiças, e o pavor de ficar sem trabalho algum que pague as contas da vida. Embora existam almas sebosas, há quem valha.
Não saber definir felicidade, um sorriso de amor rarefeito pelo cansaço, um abraço de tudo bem, meu bem, ficará tudo bem, ou seriam as trêmulas cores dos devaneios? Não saber se é fábula ou causo de contar, esse viver. Não saber o que gravar do passado, ao coração que adorou aquele homem que vinha passar um natal em tempos antigos. O mesmo que pediu para não beijar daquele jeito desesperado qual morte anunciada. Ou se o livro do deus passeando na brisa da tarde se desmanchará, antes mesmo da suavidade tardia que o levaria. De repente não tem mais nada, foi porque tinha de ser, vaivém. Nele a manga madura, pele morena, cheiro de fruta da terra, lembrança de corpos colados no salão do restaurante nordestino, cabelos se enroscando, molhados de chuva cintilante no meio da primeira noite do primeiro dia. É tarde, vamos embora? A despedida apressada numa manhã corrompida por horários distantes do universo dos afetos. Ah, mas se foi tão naturalmente como surgiu, querido amigo. Aviso do amor que me viria, ensinou-me a espera que desconhecia, as delícias que não tocamos. E foi com sua asa, deixando a minha.
No horizonte há um fio comprido a luzir destino, destino meu, como será? Não saber por que tanto pó invade os buracos cobrindo as verdades da verdade. Mas o que estou a dizer, quem sou, quem és tu? Tu que não revelo, achas que devo escrever sobre o quê? Revelar as cortes e os porões mofados, as catacumbas das derrotas? Anuncio nos classificados as ilusões perdidas, ou procuro Alma, aquela que se alugava para sonhar?
Escrito por porque escrever é preciso às 20h13
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Não sei se acordei de saudade ou vontade. Frivolidades humanas também têm espaço. Dormi com as palavras de alguém na boca, peitinhos e bundinhas de menininhas que eles anseiam por morder, lamber Lolitas magrinhas nuas na beira do rio, sentir o líquido gozo entre as pernas, vem, enfia. Porém eróticas e desamparadas, como se depois ficassem suspensas, feito vasos de enfeite, ou pinturas incorpóreas, prontas para aquecerem os momentos de sexo à queima roupa. E vôos sem rumo. Imaginar aquela garota de vestido curto, florido, leve tecido, sem calcinha, caminhando pela rua, indo para qualquer lugar, ele paralisado de loucura, nossa, podia ser agora mesmo, e ela, envolta num olhar de safadinha manhosa, puro dengo de menina gostosa, quer e pede. Então eles vão e se lambuzam. Assisto tudo assim à distância, sentindo o vazio de horas semelhantes para sempre marcadas nos gestos do olhar. Mas, agora, fico bem nesta cama onde o sol se transforma em homem e me satisfaz.
Por que teu erotismo pende para a tristeza, meu amado? Não sei se é lamento, ou a satisfação depois do coito, aquela tristeza de quem muito comeu. Não saber o que percorre da tua língua nos lábios dos desejos, nas teias dos teus contos. ‘Quem era Cândida, quem era Teco? Lembranças doces e tristes da juventude. Por que a tristeza? Não sei. Era eu muito triste naqueles tempos em que via sentido na literatura. Via sentido na literatura sem ver sentido na vida. Hoje vejo algum sentido na vida e pouco na literatura. Por quê? Não sei. Voltarei a escrever pelo gosto de escrever, não pelo de ser lido. Antes, escrevia por necessidade psicológica, catarse, e porque queria ser lido. (...) Bem, voltando à tristeza. Não, não é tristeza pós-coito, nem lamento, apenas o que se sentia naquela ocasião. O sexo era gostoso, mas a vida, não.’²
Sim, desvelarei o texto que desta boca sai. Escrevo porque tem gosto, por ímpeto, porque não sei dizer todas as coisas e tampouco alcanço tudo que busco, escrevo porque escrevo, quase como um correr alucinado pelo ar, lúcido, delirante, sofrido e trôpego. É. O sexo ainda tem gosto, mas a vida da política diária que interfere no pleno gozo, não.
Por não saber como manter acesa a credulidade de quando outro país era possível, quando fomos mais alegres e donos de nossas vidas. Nesse tempo, o presidente do Brasil, o congresso, o parlamento, ou os tribunais não nos prejudicariam. O país seria nosso, afinal. Em caso de discórdia íamos às ruas, chegaríamos ao ‘consenso’ - veja bem, assim as pessoas continuam na miséria, analfabetos de letras, o Brasil está parado, sem recursos, sem investimentos, sem entrada de divisas. Sem trabalho - vossas excelências - estamos diminuídos. Prezado senhor presidente, não tem jeito de vossa senhoria acordar para a realidade de fora do palácio? Vamos mudar, de agora em diante está decretado que serás de fato um prestador de serviços à comunidade, e não mais o sapo-rei, surdo, inflado e senhor de tudo. Napoleão sobrinho foi pequeno ditador, ambicioso por poder atropelou os inimigos e no congresso fez pérfidos conchavos, subornou, tramou, descartou a constituição. Ao final perdeu a guerra, claro que entregando as contas ao povo.
Escrito por porque escrever é preciso às 20h10
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E esse não saber o que será de nós, filhos da terra que lavramos de sole a sole, das construções erguidas sobre sangue, quando pagamos desvios de verbas e superfaturamentos com a morte e o fiapo das gentes. E a prisão de morrer todos os dias em nome do que ainda se chama viver, de desemprego em subemprego, escravizados, dormindo e acordando com a falta da falta da falta. Embora a saber algo, sim, porque de eleição em eleição o estado de coisas se repete. ‘Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.’¹ Onde guardar tamanha descrença, perplexidade? Nem colchões ou tapetes suportam.
Louve o saber, não adule a ignorância. Porque este não saber é para vir a saber, conhecer, apreender e transformar.
Então, meu bem, o não saber se procria nos vácuos. Deixo um pouco a guerra de fora para estar contigo nos momentos de trégua, porque tens esse calor de amor que afugenta os maus espíritos, esse gosto antigo de ontem. Meus melhores e piores, meu azar e minha sorte. Quero dormir sobre teu peito, escutar teu coração no meu, porque acordei ferida das batalhas de ultimamente, peço teu embalo de corpo e abraço. Teu gosto de bom dia roçando na testa, morno como promessa. Ah, manhã!
Manhã que se perde da essência, não saber o salgado dos olhos de onde vem, por que esse mundo tão inverno e primavera? Tenho dor e abandono, e sei que não é preciso nomear todas as coisas, principalmente os desencantos. É que fiquei sem esperanças ao ver a mulher e a criança arrastarem aquele carrinho de lixo, o cachorro latindo, sem pausas dramáticas, agüei. A vida é feita de encontros e desencontros. E de gente passando fome, na miséria da doença, da falta de abrigo, de água, de comida, e adolescentes assaltando a mão armada. E não falemos em esmolas, hospitais, escolas ou aposentados, afinal isso estará nas campanhas dos próximos meses. Às quais estaremos atentos, ou sim, ou não?
É preciso deixar os mortos enterrarem seus mortos, a fim de alcançar o conteúdo (e a poesia) do presente, despojados da veneração supersticiosa do passado (JK, GV etc.). Botei a invisibilidade na reserva. Sim, as pequenas coisas emocionam e entristecem, as grandes nos derrubam, e caminhamos.
‘Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxilio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada.’³
Palena Duran
Citações: ¹ e ³ – de Karl Marx, em O 18 Brumário de Luis Bonaparte, capítulo I; ² – de L.
Escrito por porque escrever é preciso às 20h07
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