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Sobre as coisas belas, sujas e feias
É que eu caminhava tranqüilamente por um domingo, a caminho de casa, pensando na falta de surpresas, por ruas estraçalhadas, cidade escangalhada. Esse olhar ora tristonho, ora esperançoso, ora risonho, imprevisível, inconstante como o clima. Singelo final de tarde em São Paulo, dia de encontros familiares, pais e filhos, casais de mãos dadas, namorados e trabalhadores operários voltando para casa. Embora minha costumeira melancolia dos domingos, principalmente os azuis, também desejava não pensar em nada e sobre nada refletir.
Fiquei assim vagueando em palavras repetidas de dúvidas e talvez até a quarta-feira, ao ligar a televisão. No programa Apito Final, moribundos homens do futebol declaravam a ressaca da estréia da seleção na copa, de fato um a zero contra a Croácia foi pouco para tamanha parafernália. E bem na hora do jogo tinha de acontecer o maior trânsito em São Paulo? Eu e L. perdemos o primeiro tempo dentro do táxi branco, assistindo rostos de pessoas mordendo os lábios, fantasiadas e tensas nos carros, nas ruas, reunidas em torno de pequenas televisões nos pontos de táxi, bares, bancas de jornal, ou presas nos ônibus lotados a escutar pelo rádio como nós. Houve silêncio concentrado, até a loira menina - empunhando a bandeira do Brasil - postar seu corpo liso pra fora do carro à nossa frente, rindo divertida. Querendo aparecer, rindo de quê? Eu estava desolada, impaciente, afinal era a estréia, puxa vida! (...).
e a continuação em http://www.geracaobooks.com.br/
Escrito por porque escrever é preciso às 10h10
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Quando acaba o amor?
O amor acaba quando se pede de volta aquele quadro que um dos dois não olhava, no domínio sobre o vencido. No grito oco. Quando morrem as plantas que ficaram na velha casa, quando notamos as primeiras manchas nas paredes, naturalmente os adornos se quebram, e o telefonema não pede que se volte logo por saudades. Quando nos ocupam as lembranças de esquecimentos distraídos, quando nos ocorre que poderia ter sido diferente, sim, porque éramos vastos. Quando a sensibilidade se concentra na mágoa e numa coisa que não se sabe de onde vem, nunca se viu e nem é bem isso. Quando se assiste a espetáculos mesquinhos e desordem no universo do que foi. Teria sido? Ou quando o olhar se perde nos desenhos de uma tábua de cozinha, a mesma onde foram preparados tantos almoços, jantares, vinho derramado em conversas amenas.
O amor acaba na fissura. Quando não se sabe quem está a viver aquela tarde do sábado, de quem são as pernas que a esmo caminham, ou os braços que carregam ponteiros do relógio de certa igreja matriz. Por que vivo nesta cidade? E a língua é o sino metálico sem corda pra badalar. Quando se é cera de vela, ou alguma figura geometrizada, soturna e em fundo escuro de Caravaggio. Embora sem o mesmo ritmo, relevo ou admiração pelos entes da natureza. Menos Dionísio, mais farsa e tragédia. Quando não se tem mais nada a extrair das estátuas clássicas, do amor romântico, ou dos mitos romanos do homem heróico. Quando não conseguimos nos separar da condição humana, fincados que estamos, e daqui não se vai com o vento. Quando se é cigano e prostituta. Ou terra com gosto de ferrugem. Tanto faz tudo, podem morder ou retalhar porque o sangue se foi, caveira sem advertência. Quando se cai em vertigem e um silêncio incômodo zune, amortecido ao que os ouvidos pedem e das vozes não se escuta. Quando se toca sem pegar e é preciso reaprender formas e conteúdo. Quando se procura nos manuais o quê comer, como se proteger do frio, em qual parque passear com as crianças, como recuperar os desejos e reorganizar os afetos. Quando se está em despedida e saudações soam brutais como a luz do dia, é noite gelada e chove fino. Quando protagonizamos os velórios, os ritos e refúgios em sacrifício. Quando lenta morte nos entra para re-construir o passado, e o viver não tem mais a divindade dos sentimentos exagerados. E quando.
Escrito por porque escrever é preciso às 13h32
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