| |

O amanhecer
Domingo, a caminho de casa, pensava nas coisas belas, sujas e feias. Porque tem a questão das coisas, palavra que cabe para tudo, em tudo. E na falta de surpresas que tanto causam prazer. E as ruas estraçalhadas da cidade escangalhada. E meu olhar ora tristonho, ora esperançoso, ora risonho, imprevisível, inconstante. Singelo final de tarde em São Paulo, dia de encontros familiares, pais e filhos, casais novos e antigos, adolescentes voltando para casa, trabalhadores nos pontos de ônibus. É boa a sensação de poder voltar para casa, receber o calor aconchegante na alma, sim. Ainda sinto certa melancolia aos domingos, talvez porque pareçam sempre iguais, nem sei. Atendendo a pedidos chorosos de minha irmã, passei no supermercado para comprar um chocolate preto com avelãs.
Eis que encontro o amigo mineiro Naiman, original de São João Del Rei. Até engasguei. Estava acompanhado de sua filha Bárbara, e uma amiguinha dela, estiveram passeando no Sesc Pinheiros, assistiram a uma bela apresentação do Grupo Cupuaçu. Ainda que não tenha comentado, notei um Naiman mais magro. E foi. Conversa vai, conversa vem, a situação não anda nada bem para os artistas, sem apresentações, sem mecenas, ele se disse cansado. Cansado da poluição, da falta da falta, da sujeira visual, dos ruídos e barulhos desta megalópole, do funk carioca com que os vizinhos o tem atormentado lá no Patriarca. Há tempos sem compor também. Disse que estava preocupado com isso, será que não comporia nunca mais?
- Liga não, o processo de criatividade é assim para alguns. Às vezes fico tempos sem conseguir escrever nada, ou algo, e me pergunto se não era tudo uma mentira. Será que era eu mesma a escrever? Será que nunca mais? Daí volta, custa algum sofrimento, mas volta.
A velha questão - será que só escrevemos em estado de profundo sofrimento ou isso é puramente juvenil?
- E o coração, a quantas anda?
- Ah, coração desocupado, mas, também, dez anos no primeiro casamento, depois oito anos no segundo. Quero ficar um pouco só, acho que preciso aprender a ficar sozinho. São Paulo está muito fria, as pessoas daqui são desse jeito que você sabe.
- É, sei, mas quantos amores cabem à vida? Amar é muita coisa, um universo, não cabe tanto a toda hora.
Ainda bem que estou namorando, senão também estaria minguada, pensei. Mas ficar sozinho nunca foi projeto de vida do Naiman, justo ele que gosta tanto de estar com os amigos, compartilhar, doar, cantar e cantar.
- Preciso sair de São Paulo.
- Você está desiludido, Naiman?
Olhou-me do fundo avermelhado de seus olhos visivelmente descrentes, meio espantado e talvez constrangido com a pergunta. Sempre fui ruim para consolar, e queria saber dizer algo confortante, sábio talvez. Gostaria tanto de poder fazer algo, sei lá o quê.
- Desiludido? É, acho que sim.
- Está difícil mesmo, entendo... Mas o que você tem lido?
- Estou lendo um livro do Paulo Freire reeditado pela editora (...), não lembro o nome.
Quase ninguém lembra mais das coisas, aquelas que são tudo e nada.
- Passa lá em casa para uma visita e te empresto um romance, ou algo assim.
- Vou, sim. Quero ver como está aquele violão, sinto saudades dele. E você, tem escrito?
- Continuo, sim, você sabe, não consigo parar. Não sei para quê exatamente, mas isso já não me interessa como antes. Escrevo porque preciso escrever, assim tem sido. Passa lá no blog quando puder... E o violão está lá num canto, pedindo que alguém cuide dele.
- Quero te ler, estou com saudades das tuas poesias. Você sabe que eu adoro, né?
Escrito por porque escrever é preciso às 12h16
[]
[envie esta mensagem]
E, num flash, me veio uma fase do ano passado. Naiman contentíssimo, crente de tudo, tocando aqui e acolá, sassaricando, compondo, querendo se juntar às gentes, propondo movimentos coletivos de criação e ocupação de espaços culturais desativados. Chegou a fazer uma apresentação do trabalho que ele fazia questão de dizer que não se resumia a um cd musical, não, longe disso, ele queria poesia, declamações, performances, choros e gozos. Naiman estava feliz. Naqueles dias eu amargava tristezas, lembro bem. Os motivos eram vitais, desamores e falta de trabalho remunerado. Então ele quis me alegrar e convidou-me para ler um texto – o Da Guerra II – no teatro do CEU Aricanduva, onde ele faria uma apresentação de seu projeto fulinaímico. Arrumou-me uma dor de cabeça terrível, justo eu que morro de vergonha de palcos e platéias. Um dia deixo disso, é. Nem preciso dizer o quanto me boicotei, não reconheci o palco, não testei nada, saí de casa na última hora a um lugar que não fazia a mínima idéia de onde era, com o jornalzinho onde o texto tinha sido publicado, dobrado na bolsa, de qualquer jeito. Chama-se Café Literário, o jornal. Para chegar lá foi uma via crucis, metrô, ônibus no terminal e, completando o cenário, uma chuvinha fria e fina. Como na periferia as coisas são mais abandonadas, as passagens de pedestres são hiper espaçadas na Avenida Aricanduva, as ruas feitas em lama, acabei por me perder o suficiente. Cheguei com a apresentação começada, morta de vergonha e apreensão, querendo mesmo que o Naiman esquecesse de me chamar ao palco. Mas não, a certa altura escuto meu nome. Lá fui, sapatos enlameados, jornal amarrotado, cabelo desgrenhado, tremendo, tremendo. Enquanto eu lia, ele me acompanhava ao violão, tínhamos ensaiado uma vez apenas, a melodia era mesmo bonita. Ainda que minhas mãos tremessem, a voz saiu límpida.
E o que me acalenta essas lembranças é o sorriso do Naiman daqueles dias, o calor de seu abraço, a esperança viva em seu olhar, a alegria de suas crenças. E tantos brindes de amizade que me ofertou em tempos sombrios! Gostaria de ajudá-lo, mas como? Gostaria de poder cantar os novos tempos que virão, sim, porque ele merece e porque sim, é direito. Do mesmo jeito que ele fez quando eu não conseguia alcançar o calor da vida e apareceu na porta de casa à meia noite, violão nos braços, surpresa, uma canção de ninar, ‘Duerme, Palenita, que a noite já vem’... Ficamos lendo e conversando hasta nem sei quantas horas e dormi apaziguada, sabia que tinha um amigo.
Naiman querido, confie, não desanime, embora eu não saiba encantar como só você consegue, digo que teu tempo já vem.
p.s.: para saber mais sobre o artista, acesse o site de Naiman aí ao lado.
Escrito por porque escrever é preciso às 12h15
[]
[envie esta mensagem]

Às vezes não há resposta, os ouvidos se calam aos chamados externos. Ficamos órfãos, nem vazios, mas uma espécie de abandono se configura. Seria o labirinto da solidão, a condição inevitável no silêncio de ser? A hora das perguntas. Talvez porque o tempo esteja se manifestando mais rápido que de costume, ou os costumes perderam o tempo de vista. A pele não é mais a mesma, os movimentos custam energias dobradas e no horizonte os picos de sonhos não realizados. ‘Há muitas vidas por viver’ é o que nos diz a arte, ou seria a arte que diz à vida? Mas a vida também é feita de pequenas mortes.
Escrito por porque escrever é preciso às 01h54
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|