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Os sonhos envelhecem?

Também tive uma doçura venenosa de tão funda. Hoje o que me escorre da língua, um gosto de não sei. A casa não está como desejo, desarrumada como os olhos que me olham. Fosse pra desaguar faria a mesma cena dos vinte anos, mas naqueles dias não havia o que hoje há. Tenho potes de mágoas e qualquer desatenção ainda pode ser a gota d’água. Procuro a verdade histórica, dos sentimentos, a verdade da verdade é o que valeria. Não suporto a voz gelada, o corpo sem estar, a falta de toque nas mãos, a solidão junto ao outro, o silêncio alienado de futuro. Por que? Porque muitas vozes afoitas perturbam o porvir, também sou filha do efêmero, talvez escrava de uma singular história. Faríamos um país diferente. O sonho daria certo, sairíamos do pesadelo, essa era a promessa, lembra? Lembra daquele dia em que andávamos de mãos dadas, despreocupadas, e assistimos a enorme bola laranja de sol no final das ruas? E saímos correndo para abraçar o sol e seu hálito morno. Fazíamos juras, promessas de um dia morarmos juntas, revolucionar vidas, e nossa casa seria a primavera dos descontentes. Tínhamos alegrias a quilo. Nem eram conquistas, eram dádivas que caíam em gotas gordas sobre nossos lábios. Sorríamos e fazíamos boca de urna. Era o final dos anos 80. Discutíamos política e politiquices, semanalmente os diretórios do partido nos esperavam com seus materiais de campanha, acreditávamos na mudança. Qual Sarney, o quê. Brigamos com os malufistas e quercistas das ruas, exercitamos todos os discursos de palanque, e aquela camiseta no peito: ‘Estou PT da vida’ (...). Foi numa dessas, em frente ao prédio da Gazeta, coração da Avenida Paulista, conversando e convencendo eleitores, que veio o repórter da TV Globo fazer a pergunta que nos tiraria do sério. Primeiro ele pediu que cantássemos a música, ‘Sem medo de ser feliz’, e depois o xingamento velado: ‘quanto vocês receberam para fazer boca de urna?’. Possessas, principiamos o bate boca do velho e real discurso contra, contra, contra, quem era aquele vendido que ousava questionar nossas verdades ideológicas!? Por sorte apareceu o Suplicy, e corremos a ele, contamos o que havia acontecido, que ele nos defendesse, por favor. Não podíamos permitir que aquilo acontecesse em 1989, o ano das primeiras eleições livres e democráticas. Diplomático que é, Suplicy ‘explicou’ ao repórter que havia gente que acreditava em programa de governo, no candidato, no partido, em política até, e outro país era possível. E nós ali, ao fundo, sentíamo-nos vencedoras. Sim, o Brasil mudaria e os alienados políticos não teriam mais o mesmo espaço de atuação. Tínhamos um compromisso histórico a cumprir. Também os conservadores e os reacionários perderiam seus lugares, a justiça seria feita pela maioria. Acreditávamos ser maioria. Acreditávamos na verdade, na justiça, todos os ventos sopravam a favor, pensávamos que havia um projeto nacional.

Então agora, diretamente da varanda do terceiro andar, é outono, faz frio em São Paulo. O Brasil está regelado. Congelaram as esperanças de emancipação, será? As ações se repetem como farsa e tragédia – Imperialismo, fase superior do capitalismo. Palavras e sonhos gastos não fazem mais sentido. As verdades são dúbias como os propósitos, e o mal fadado, mal fadado está, é. 2006 na garganta e mais do mesmo.

“Se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, dever-se-ia dizer que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo. Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais, e, por outro lado, a partilha do mundo é a transição da política colonial que se estende sem obstáculos às regiões ainda não apropriadas por nenhuma potência capitalista para a política colonial de posse monopolista dos territórios do globo já inteiramente repartido.

Mas as definições excessivamente breves, se bem que cômodas, pois contêm o principal, são insuficientes, já que é necessário extrair delas especialmente traços muito importantes do que é preciso definir. Por isso, sem esquecer o caráter condicional e relativo de todas as definições em geral, que nunca podem abranger, em todos os seus aspectos, as múltiplas relações de um fenômeno no seu completo desenvolvimento, convém dar uma definição do imperialismo que inclua os cinco traços fundamentais seguintes: 1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse “capital financeiro” da oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e 5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu marcada importância a exportação de capitais, começou a partilha do mundo pelos trusts internacionais e terminou a partilha de toda a terra entre os países capitalistas mais importantes”.

Lenine, Vladimir Ilitch, in: Imperialismo, fase superior do capitalismo, extraído do cap.VII – O Imperialismo, fase particular do capitalismo, obra escrita em 1916.



Escrito por porque escrever é preciso às 12h05
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O GRITO

Um casal na mesa do boteco de comida nordestina. À distância, nada mais que um casal ordinário, envoltos no silêncio da mediocridade. Embotados, talvez, sem assunto, exaustos de suas mesmas vidas. A poucos metros, socado entre paredes e uma televisão no alto, um homem tocava seu violão, a cantar bem até. Assim que se faz marketing para atrair clientela, muitas informações, televisão, telão, rádio, música ao vivo, luzes, performances, e o escambáu. Respirar, escutar, refletir, nem pensar. Mas lá estavam os dois. Ela olha tudo à volta, curiosa, enquanto ele fita o horizonte. De corpo parecia assustada, ou angustiada, não dava pra notar suas pupilas. Então ele é quem fala primeiro, conta algo, e ela – cotovelos sobre a mesa - apóia a cabeça nas mãos. Rabo de olho na mesa ao lado, ela o escuta, compreensiva, lança alguns grunhidos, pouco importa porque enquanto fala ele nem a nota. Mas não deixa de notar as moças que passam, seus trajes, seus contornos, suas expressões, olha-as com firmeza, talvez para ser percebido. À sua frente aquela mulher, feito nada, aparentemente nada de excepcional. Atenta, ela acompanha suas curiosidades, as dele. Talvez lhe causasse fantasias, despertasse a libido que por ela não tinha, talvez gostasse de provocá-la de alguma maneira. Ou nada, quem sabe não fosse apenas um observador da existência feminina? Admirador da beleza nas curvas, desejos e pequenas alegrias alheias. Estou a duas mesas de distância, apenas ela me vê. E enxerga, percebe minha presença. Em princípio pareceu se incomodar, reprovação, disfarcei, depois deixou pra lá e muito bela me encarou, baça e latente. Tinha algo de profundo na figura morena, delicada e intensa. No intervalo entre uma música e outra, escutei sua voz meio rouca, bela, agora ela falava e ele nuvem. Não era bobagem, não, gesticulava com alguma dor de razão, aconselhava, e ele ausente. Senti raiva, por que não a olhava de frente, inteiro, como ela se colocava? Também conheci semi-relações, casais sem calor, sem vivacidade, apenas acostumados. ‘Ela é uma companhia agradável, não fala demais, não é vulgar, não atrapalha, não cobra’, imagino que esse devia ser o parâmetro dele. E sua urgência, a solidão dela onde ficava? Na palidez do rosto, no sorriso fosco, nos gestos contidos, na melodia gasta. Definitivamente ele não a conhecia, pouco ou nada sabia da mulher em sua frente, estavam em margens opostas. Algum carinho de soslaio, nada que vibrasse, nenhum beijo público. E ela ansiava, pedia algo no abrir e fechar a bolsa, ao ajeitar o casaco que vestia, ao procurar posição confortável na cadeira, no inquieto cruzar e descruzar de pernas, na aflição muda de arrumar os objetos sobre a mesa, o saleiro, o paliteiro, queria e exalava mais. Passava os dedos pelos brincos, brincava de por e tirar os anéis, cantarolava a música do ambiente, talvez o procurasse no vermelho das unhas. Ele a escrever uma mensagem no celular. Toca um telefone, é o dele. Ela paralisa, vira a cabeça com cuidado, não é de movimentos bruscos, e escuta sem ouvir direito. A conversa se estende, ele absorto, finalmente a abandona. Sôfregos, reencontramos nossos olhares no meio da noite, eram verdes seus pedidos. Ele levantou pra telefonar da calçada. Então paguei a conta, respirei o melhor que o tempo esconde, e fui em sua direção. Não recusou meu abraço, nem evitou meu doce beijo roubado.



Escrito por porque escrever é preciso às 14h23
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