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Causos do Brasil
É impressionante como os brasileiros são sonhadores e crentes. Ao caminhar pelas ruas repare no povo, o pessoal que almoça nos botecos escutando as músicas ‘bregas’ de sacanagem, dor de corno ou odes à mulher amada, ou engolindo as porcarias da televisão, sessões de anti-noticiário, piadas infames, ou o bispo praguejando aos fiéis, cada coisa. Acham que um dia a vida vai melhorar. Também acham que os políticos são corruptos e corruptíveis, todos. A maioria não sabe quem são ‘todos’, nem o que fazem exatamente, ou o que é Estado de Direito, mas também não se colabora muito. Bem que a televisão poderia ensinar um pouco, um pulinho qualitativo não abalaria o sistema de consumo. Lembro dos alunos de um cursinho pré-vestibular onde eu dava aulas de geopolítica, eles queriam ser médicos, advogados, engenheiros, quase sempre optavam pelas carreiras clássicas. Porque nestas haveria maior possibilidade de emprego, às vezes trabalho, e ascensão social. Sei não, mas parece que estes planos estão comprometidos. E tinham os alunos em crise, muitos, que vinham chorar, descabelar, conversar, pedir conselhos sobre o quê fazer em relação aos pais que os obrigavam a escolher carreiras para as quais não tinham a mínima vocação. Tão jovens e tão desiludidos. Tão jovens e sem poder de voz. Mesmo aqueles que perseguem sua vocação, alguns devem estar adultos entristecidos, desempregados, castrados, escravos da impossibilidade, do não-saber-o-que-fazer-para-mudar-de-vida. Dura vida, vida dura, dureza total. Crentes e trabalhadores que são, os brasileiros não desistem fácil. Também acreditam em milagres, em Deus e Jesus, talvez isso sustente boa parte dos sonhos. É admirável encontrar um ser humano que acredita no paraíso quando todas as evidências e fatos reais comprovam o contrário. É uma questão de fé. O menino que fica em frente à padaria, de bermuda e camiseta nesse úmido frio paulistano, tiritando, pedindo algum trocado, por favor, qual será o sonho dele? O que será que o agarra à vida? E ele sorri, ao seu lado está a jovem namorada com outro(a) brasileiro(a) na barriga. Ela imagina que um dia terá os cabelos daquela atriz, sorrirá com aqueles dentes e sua pele marcada será lisa, ensolarada, terá uma vida confortável, casa própria, usará roupas elegantes como aquela lá (...). Depois vão pedir dinheiro em outra freguesia, pedir almoço na porta do restaurante chique, procurar abrigo, um lugar menos frio para descansar.
Um amigo me disse que 20 mil pessoas estão fazendo dinheiro no Brasil, e os outros são milhões lambendo botas, esfregando suas vidas nas esquinas, nas quebradas. Eis as palavras do meu doce amigo: “São vinte mil pessoas de classe média alta e de classe alta que têm dinheiro sobrando e fazem aplicações financeiras em fundos de investimento, ou diretamente em títulos da dívida pública do Tesouro Nacional. Pode chamá-los de ‘rentistas’, é gente que vive de renda. Esse dinheiro poderia estar sendo investido no setor produtivo, nas empresas, gerando emprego e renda para a sociedade. Quando surge alguém sugerindo dar um calote na dívida interna, ou renegociar esta dívida, alongando prazos para eles terem o dinheiro de volta, esta gente – os rentistas – é que seria prejudicada. Mas eles já ganharam muito. No entanto, o governo tem medo de mexer com eles. Mexeriam também com os bancos, porque é através dos bancos que essa gente faz suas aplicações”.
Leio no jornal que o Presidente Luiz Inácio tem enormes chances de vencer as eleições já no primeiro turno. Então olho nos olhos do povo e assisto um sei lá, não acredito que as coisas vão mudar, são todos iguais. Um dia a vida melhora, não é?
E como explicar política econômica, como dizer que poderia ser diferente, quando na primeira página do jornal vem estampado que o dólar teve a maior alta desde 2002 por causa do ‘pessimismo no mercado financeiro’? E mais, no corpo da anti-notícia vem assim: “Desde o dia 10, quando o humor do mercado internacional começou a azedar, o dólar acumula valorização de 16,45%”. Embora eu seja ignorante em economia, não posso acreditar que o destino da humanidade seja guiado por humores voláteis. Manter o analfabetismo tem suas utilidades. Por exemplo, acreditar que o mercado se comporta como um organismo vivo, tem seus humores, cuidado, fale baixo senão ele se irrita, não grite, não conteste. Quem sabe amanhã ele não estará otimista, alegre e generoso, superado da crise (depressiva?) e, então, a vida de todos vai mudar? É preciso mesmo ter fé, sonhos e muita sorte. Ainda bem que o Brasil é um país jovem e o destino pode tomar outra direção. Ou sim, ou não, talvez.
Palena Duran
Escrito por porque escrever é preciso às 14h02
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