| |

Será que ele ainda me ama ou é apenas meu estúpido desespero que grita no silêncio das horas? Ou porque não me beijou como queria sentir, talvez. Ou porque nos despedimos como quem está casado faz vinte anos, talvez. Mas depois de vinte anos quero sentir calor por ele, surpreender-me com seu olhar no meu, ser horizonte. Caminhar de mãos dadas ainda sem conseguir dizer tudo o que me causa, essa doce confusão menina. Pulsar saudades no meio da tarde e, então, enviar-lhe um recado de breve pausa: amo você, te desejo, dá pra sentir? Sem mais nem menos, imaginar que do outro lado do rio ele estará pensando em mim como ontem. Não saber o que responder à criança que, bem baixinho, como a contar segredo, vem perguntar: quando é que acaba o amor? Ainda admirar sua presença na antiga cama, ter o gosto de sua pele na nuca, rir de seus roncos, assustar com a falta de respiração ou a brusca mudança de posição no meio da noite. O que foi? Nada, meu bem, não foi nada, pode dormir. Carícias no rosto, beijo na testa. Depois de tantos anos desejar todas as manhãs do mundo, e suas mãos me acariciando num suave bom dia, você dormiu bem? Mesmo os dias distraídos, apressados, sem abraços apertados ou boa sorte, bom trabalho, também quero esses momentos que podem ser desfeitos com um telefonema surpresa. E sua voz chegando da outra margem, rasgando fronteiras. Ainda que sem vida inteira, para sempre, ou eternidade, espero que tenhamos pores de sol y lunas por la noche. E que as palavras saibam surgir das tintas, sem cansaço ou falta de paixão. Que eu possa reinventá-lo em minhas fantasias, contar histórias e sabores às crianças, aos amigos, e nossa casa tenha o perfume das flores naturais. E que nenhuma distância nos faça distantes do jardim da vida e do viver, da busca dos sentidos. Respeitar os conflitos, as angústias, o desassossego existencial, nossa contradição, em nome da tranqüilidade, sim, e ainda nos perguntarmos qual o sentido da vida? Teremos nossos cantos de solidão necessária, estando perto ou do outro lado do oceano dos olhos. Saberemos fazer viagens, desacompanhados, sozinhos ou lado a lado, na poltrona da sala, porque sonhar só é necessário. Quero, ainda e mais, depois do tempo compor o passado todos os dias, desse jeito silencioso, escrever poesia no papel pra dizer que sonhar é imprescindível. E viver, vivê-lo será melhor ainda. Anotar frases, idéias para os contos futuros, pôr a mesa cantando e bebendo vinho enquanto ele prepara o jantar. Fazer a salada, tentar o novo molho do livro de receitas, sorrir dos pensamentos e escutá-lo se aproximar por trás, mansinho como é de ser nas horas de carinho. Do que você está rindo? Lembrei daquele dia, era tudo um caos na tua vida, você em reunião muito-muito séria com advogados, definindo o lugar das dores e desilusões, superando separações, e eu em casa a ler, naquele trabalho concentrado, envolvida em devaneios te mandei um recado... Imaginei agora como deve ter sido receber um ‘amo você, te desejo, dá pra sentir?’, no meio daquele estorvo tão absurdo. Entre acordos, tailleur e gravatas. Insólito talvez. Nesse dia, então, livre e sorridente, o teu corpo virá me abraçar e teus lábios quentes me molharão de calmaria e delícias.
Outono, 16 de maio, maduro maio
Escrito por porque escrever é preciso às 16h50
[]
[envie esta mensagem]
[ ver mensagens anteriores ]
|