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PalenaDuran


O velho amigo revelou que nunca mais sentiu paixão como aquela, beirava os quarenta anos sem sentir novamente. Não era triste, mas estava morno. Era todo dia um acordar e dormir pensando nela, vendo-a por tudo. Mas não conseguiu dizer a tempo de realizar o destino, tinha vergonha, paúra, e os anos se passaram. Depois a reencontrou numa grande avenida da cidade, ela atravessando o farol e ele no carro. Buzinou, ela o reconheceu e acenou um leve cumprimento, estava apressada. Era dia 25 de dezembro. Ele achou que só podia ser um presente dos deuses, chamou-a, mas ela disse que não dava. Então o homem revelou aquele antigo calor, subitamente foi acometido pela insanidade dos apaixonados, fez uma curva proibida e entrou na contramão de uma rua movimentada. As pessoas dos carros jogavam o farol em sua cara, gritavam, xingavam, onde já se viu esse maluco? Paixão tem dessas coisas. Ela assustou, é claro, você enlouqueceu? Não podia te deixar ir embora, perdi teus telefones, sabia que se não fosse agora – nunca mais. Ou até a próxima coincidência. Mas o destino deve ser agarrado com as mãos, agora ele sabe. Então ela lembrou do que deixara para trás, das ocasiões perdidas, dos silêncios calculados, das distâncias forjadas. ‘Teria eu deixado aquele lastro de ‘quem sabe depois’ na esteira dos dias? E agora que me sinto profundamente longe lembro que me procuraram, sim, e eu não estava para encontrá-los. Seria a arte do encontro também o exercício da permissão?’. Há pessoas que permitem a chegada de qualquer alguém e passam anos da vida, lado a lado sem estarem plenamente juntos. Restam à procura. Ao recordar o que deixaram passar, as oportunidades de bater à porta da incerteza em nome disso que primeiro é quentura cega e recebe tantas nomenclaturas, isso que nunca se sabe ou conhece até que tome por completo a atmosfera do viver. Essa neblina que impede a observação crítica vem nos mostrar que o real mora na interpretação do olhar. E também na corrente sangüínea, na pulsação sístole, diástole. Assim é que muitas vezes na hora de enxergar simplesmente piscamos ou viramos o rosto para a verdade. Mas não seria essa tal verdade dos afetos uma invenção diária ou temporária? Há quem procure sentimentos arrebatadores, quando existe referência de paixão no horizonte das sensações. E outros ficam como estão, quase se emprestam ao acaso pra qualquer um, sem se fazerem donos das pequenas e grandes coragens. Porque sim, simplesmente. Às vezes por medo, por não saberem ficar sozinhos e ver quanto se desconhecem, por não saberem ultrapassar o vale dos sofrimentos e aceitar o labirinto da solidão. A solidão da condição humana cercada das solidões que nos rodeiam. Mas nada é simples nesta vida. Aquele que cometeu loucuras pra cumprir o que havia adiado durante anos se deu mal, ela não o queria mais, tinha o coração ocupado. Mas por que você não me esperou? E ela: porque o tempo passou.



Escrito por porque escrever é preciso às 14h52
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escutem Joana Flor! 

www.buscamp3.com.br/joanaflorseus2maridos 

...A minha casa anda aberta

Abre todas as portas do coração...

A cera da vela queimando

O homem fazendo seu preço

A morte que a vida anda armando

A vida que a morte anda tendo

O olhar mais fraco anda afoito

O olhar mais forte, indefeso

Mas quando eu chego

Eu me enrosco

Nas cordas do teu cabelo

Ainda há pouco eLe saiu daqui. Uma noite juntos na casa remendada, no espaço de coisas velhas, queimadas, pó, gato por ali e aqui, tudo ‘meio mais ou menos’. E gatos, fios, conexões escusas porque falta, falta muito. Incompletude. Com a gente tem sido assim, fora da ordem. Nesse tempo que parece ontem cumprimos dois meses. Procurando nos gostar e entender como é possível, em dias apagados noites de meia luz. Respiração incerta, asma, alergia, cansaço nas más surpresas. Embora haja música seguimos desritmados, às vezes sem melodia. No meio da manhã madrugada tentamos cruzar nossos corpos, porém, porém Desenredo. E a voz de Nana Caymmi aos ouvidos:

 

Por toda terra que passo

Me espanta tudo o que vejo

A morte tece seu fio

De vida feita ao avesso

O olhar que prende anda solto

O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego

Eu me enredo

Nas tranças do teu desejo



Escrito por porque escrever é preciso às 11h18
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Feito loucos, confusos, partidos, queremos alcançar o paraíso. Acreditamos em dias nossos sem fantasmas ou dores. Gostamos mais do que será depois. Depois será melhor, depois será possível. O bebê estará a salvo e haverá horizonte nos sentimentos do mundo. Mas não sei, não sei porque outra vez a vida pede que se espere. Tende paciência, compreensão, diz o frio da chuva. Descompasso. O jornal sobre a mesa prenuncia verbos estranhos, olhares perdidos, para onde caminhamos? Não queria ter chorado na cama, muito menos ter escutado ‘será que devia ter dormido aqui?’, e novamente ventam fios de solidão. Esquece, queria dizer esquece, vamos ser apenas amigos. Se ao menos estivéssemos inteiros, o bom dia seriam raios azuis, o mundo rosnaria e nossas bocas cantariam. Faríamos florestas do deserto, lembra. Relembro desilusões, tenho sonhos eróticos com quem gostei tanto, e nos deixamos. Era tanto e nos perdemos.

 

Ê Minas, ê Minas

É hora de partir, eu vou

Vou-me embora pra bem longe

 

Foi para a Bahia e eu fiquei aqui. Não voltamos. Teria sido tanto assim? Sem chagas, serena, fui-me embora como quem sela uma carta pra nunca mais. Assim encontrei eLe. Mareada. Vez ou outra reencontro aquele que não soube, pergunto por que. Dissipo as dúvidas, porque não era pra ser. Apesar de me enroscar nas cordas do cabelo, não era pra ser, repito. Então eLe vai para a rua e sinto saudades como nunca, volta, vamos tentar sem beijo de despedida. Podemos. Esquece ontem, a cama vazia, a inconveniência dos vizinhos, nossos machucados, tanto desencontro. Não sei dizer tudo, desculpa, depois será diferente. Depois provaremos do néctar. Sim, sem lenços agitados no cais do porto, espero-te aqui com chocolate na boca. Quero te viver, alcançar teus passos na travessia. Embora tempestade em nós, o barco não vai afundar, preciso te ver voltar sempre e mais. Fazer milagres nas tuas mãos. E as poesias secretas que pressentimos, sem naufrágios. Mas depois não deve ser tarde demais.

O mundo todo marcado

A ferro, fogo e desprezo

A vida é o fio do tempo

A morte é o fim do novelo

O olhar que assusta anda morto

O olhar que avisa anda aceso

Mas quando eu chego

Eu me perco

Nas tramas do teu segredo.



Escrito por porque escrever é preciso às 11h17
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Para L.

Esperei por tantos dias e vidas. Foram horas incontáveis de erros, acertos, monstros, santos e deuses. E foi tempo. Ao menos conhecia a letra, é aquela que vem com a língua saída do céu da boca. Não sabia que viria de óculos e desse jeito manso musical no falar. Ainda que nomes não dêem nomes, veio do céu em noite de violão, velas, música e bocas molhadas. Faz algumas semanas que caminhamos de mãos dadas como se hoje tivesse sido ontem. Encaixando risos em nossas histórias, choros desenfreados, esperanças e suores em nossos corpos desconfiados, acostumados, estranhados. Amor insuspeitado, imprevisível, paixão que acomete. Entre vírgulas porque trilho. Mineiro. Fico besta de nem saber como lhe dizer ou escrever as coisas que antigamente saberia, porque antes de eu dizer ele fala e vice-versa. Não conhecia essa estação sem tanto desespero ou desgovernos diários no coração, não saio mais correndo no meio da madrugada com o rosto coberto por causa do trem que vai embora. Nem ofereço a pele ou as mãos que machucam. Mas também é razão e emoção, é tempero e destempero, é excesso e apaziguamento, equilíbrio e desequilíbrio, pequenos e grandes medos de ser e estar. Os nós e as coragens. Quando desfaço a segurança ele me acolhe em abraços desprevenidos e diz que fica, diz me conhecer mais do que imagino e fico menina assustada com cara de será? Não sabe que sou contraditória, um risco mal desenhado no mapa? Ora morro de amor, ora amo para morrer. Ora vivo pra te ver, ora vejo pra te viver. Outro dia desagüei, disse que me suicidaria, e ele entendeu, quis conversar, lacrimejou seus olhos profundos, entrou na caverna secreta, capturou o incêndio de minhas angústias aflições e o gelo das extremidades. Extraordinário! Ele me aquece a alma e a ponta do nariz. Adoça meus momentos, revela garras e tristezas, é força em minha fraqueza e vice-versa. Mescla seu calor à minha descrença. Encostamos nossas solidões em beijares silenciosos, lágrimas e vinho salivaram a secura daquela noite. Eu me rendo. A cidade está úmida e fria. Sim, há pessoas em guerra, retorcidas, aos berros lutando contra as outras como era de se saber e esperar, um relógio a funcionar. Então nos abraçamos e certa tranqüilidade se proclama, fazemos e buscamos poesia em meio às batalhas, sorrimos em trânsito, no meio do caminho, nas calçadas descalçadas. Na busca por ser consinto e aprendo que com amor não se brinca e - nós desarmados - aproximo a essência. Sabendo o difícil de amar - a solidão e a liberdade.

Palena Duran
08 de maio, 2006


Escrito por porque escrever é preciso às 22h36
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