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Difícil este dia. Acordar com chuva nunca me deixou contente, você sabe. Nostalgia, talvez. Encontraram a estátua de Nostalgia que pertencia ao parque Trianon, li no jornal, ela estava despencada lá pras bandas do Jóquei Clube. Um artista tentará recuperá-la – Luiz Simões, 62 anos. Nostalgia deve ganhar seu espaço de admiração e louvor, é certo.
E sinto um banho de dúvidas sobre o corpo, ontem esteve estranho. A sensibilidade diz afastamento, parede de vidro entre os corpos, até meus pés choraram pra disfarçar o pranto dos olhos. Sou discreta, ele diz, mas nem tanto. Sou secreta, não me saem todas as vozes, talvez. Porque demoro pra pegar confiança, não quero macular os sentimentos e emoções de agora com o que é transitório - ombros cansados, doridos. Vou me encontrar, vou ao porto de Santos, ou vou ao cais da cama. À ponta do abismo no colchão. Nesta noite tive sonhos terríveis, não lembro, acordei com livros e cadernos esparramados pelo chão do quarto. Geralmente dormimos juntos e não saem do meu lado, fiéis que são. Senti-me abandonada, sangrando de fato e ficção. Ah, se eu soubesse dizer tudo! Mas não sei, porque tudo não existe, e a parte que incomoda não se pronuncia com evidência. São tantas coisas, você precisa vir em casa pra saber melhor. Quero saber o sentido da vida, mas não basta acordar cedo para descobrir essa imensidão. Debaixo de travesseiros ou lençóis não está, nem nas mãos que carrego todos os dias.
É dessemelhante. Vestir o pijama, caminhar sobre nuvens hasta el nada. Ver no espelho que podia ter sido diferente, e não será. Os abortos aconteceram, as viagens foram canceladas, e na boa vontade certa mágoa de canto.
Estou quieta, escutando o que foi. Corre medo e esperança nos gestos das sombras. A tarde tão bela magoou a mulher que me acompanha, doce amiga. Nas ruas o escândalo, o mar e a natural vertigem do frenesi deprimido na cidade.
Escrito por porque escrever é preciso às 12h35
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