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Photo Saulo Ohara
Minha menina acordou manhosa, dizendo-se enjoada por causa de salgadinhos e festa de ontem à noite. Mas como é costume, nem dei bola. Porque quando é assim ela quer é falar para o teto, sem olhar-me nos olhos cansados – meus e dela – e desenhar no ar as razões do novo dia. Enquanto sem motivo eu a contemplo enxergando a nudez de sua boca, ela a dizer cem motivos para não levantar da cama porque não ama e bebeu demais a noite passada. Além do mais, pesadelos horrorosos – mamãe caindo pela janela, imagina. ‘Tem suco de laranja, sim’. E não posso demonstrar o quanto está feia nessa manhã de lençóis impecáveis, ah, e mesmo assim gostaria de saber deitar-me com ela, abraçar as pernas que não denunciam anteriores, agarrar-me ao manso calor que se expande nessa pele. Minha menina reclama que não sabe, e eu sim, sim, já encharcado de meninices e mais louco que criança em dia de festa. Espero-a virar de lado daquele jeito de vagar pela cama a passear em campos de girassóis, camisola a subir uma fresta de suas coxas, e ela gosta disso - dobrar e desdobrar as pernas enquanto pasmo com os lábios debaixo da calcinha. Nessa hora minha menina sorri porque sei - e ela, ainda que não, pressente e molha os olhos para escorrer por dentro. Finalmente cedo ao chão e ela para o outro lado exibe as costas de areia. Quero então catar conchas e mergulhar na fotografia da parede, belle, belle. Daí eu me perco e ela me retorna mulherzinha tateando os seios comentando o frio da madrugada, e eu, queixo repousado, digo nem tanto, nem tanto. Brinco com a mandala, mas ela se irrita – olhe, você é que não sabe! E se cobre de pano violeta permitindo ombros de nadadora. É o dengo que pede, mas preciso estender o tempo enquanto o sol está pra chegar. Ocupo o silêncio porque com ela tem que ser de vagar, então digo que mordi a língua e ela pede que mostre e chega bem perto com cara de nojo. Para, em seguida, se afastar deixando um dedo em minha boca. Ainda que seja não, enlaço o que me fica porque ela gosta de textura e provocação. Mas primeiro tem que abrir um pouco mais as cortinas com os pés pequenos e dar um gemido de esforço infantil abandonando o braço no ar. E é sedoso o que escorre fora... Toco o que me foi oferecido e a musculatura faz lembrar o que lembramos. De vagar a luz se banha em seu rosto e fica bonita, finalmente, quando deixo o brinquedinho de lado e tenho o tempo para alcançar seus pequenos seios, minha menina. Agora rio e ri do que pensa, enquanto minha língua sobe e encontra o bico pedinte e mãos entre pernas se apertam. Minha menina esquece de tudo e deixa, a dizer que quer beijar outra boca, e multiplica beijos onde me abandono. Assim mordisco lábios e dentes, meus dentes arranham sua calcinha e ela diz que antes quer fazer xixi, assim como quem pedisse pra tirar a roupa e vestirmos as nossas...
Escrito por porque escrever é preciso às 01h24
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Notícias
Por te saber neste vai, vem,
Beijo tua fonte em voz de prece
Aos tragos logo afogo
Em pequenas mãos
Alvas madrugadas cadentes
E se fico quieta é que estou mais perto
A preencher o silêncio aflito
A me banhar em águas utópicas
Amortecendo as urgências
Confundindo passos e largadas
A voar pelas retinas dum não sei
Mais que eu em mim
Não sei como não sei quando...
Puxo a velha mala do fundo
Do armário na cacunda
Pesa-me o passado dum não assim
De não te ver criança
De não te correr pelo olhar
Da memória na memória
Escrito por porque escrever é preciso às 00h57
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Ah! E vens e vais
E não és líquido ou gasoso
És atmosférica natureza
A bulir com a certeza
A sugar a saliva do preciso
Imerso nas fronteiras do futuro
Enxergo-te através dos vidros
No saguão de um aeroporto
E la nave va
Esqueço os números e as letras
Não ouso relógios
E do antigo metrônomo no peito
Descarno uma canção
Pra te fazer chegar
E findar esse vai, vêm,
E abalar o desassossego
E fazer dormir esse universo
De estrelas em nossas bocas
E unir os lábios da terra
E tremer os perigos das horas
Sorvendo todas as saudades
23-12-2005
Escrito por porque escrever é preciso às 00h56
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Photo Eliana Castanho
Quero voltar para casa e sentir calor. Despir panos cinzas e chegar. Arrancar os tijolos das paredes e deixar. Ser alma quente no sofá, corpo estirado e pernas ao ar. Águas passadas não estilhaçam as janelas, nem vento, nem vidro. Sempre no meu sempre o mesmo encanto. Inventar nos olhos o cinema da vida, cobrir de saudades quase sem querer. E depois o que haveria de ser, um canto. A esse tempo, do abismo não surgiram fantasmas, algum grunhido e sono profundo. Uma sombra se veste apoiada sob pés de barro, e assim novembro, dezembro. Andava para trás e entristecia pela frente, que nada, não há meia noite, há lua cheia e chuva respingando como neve derretida.
Não pronunciemos as palavras reditas, essas têm contornos na imaginação. Assim como as letras em compotas digeridas, ainda que breves doces, ácidas. Somos vastos. É preciso como a métrica na construção da casa. É preciso reinventar os sentimentos de imagens, ações e ferraduras. Linha e agulha na ponta da língua dos dedos. É preciso não saber dizer tudo, ou nada, calar gotas pra se lançar. Não que estanque, nem que vertente, é que retesa e transverte o gozo momento. De olhos fechados agarro a melodia do planeta em rotação, porque domingo tem licença para nublar, podemos sol e maresia no jazz da estação. Domingo é dia santo sem milagres à espera, o jornal ora deitado sobre a mesa, murmúrios entre livros e manchetes. Enxugamos as pendências, lustramos os ideais, preparamos a cama da semana: ‘mande a consciência pra lavanderia’. Pela janela se enxerga o imenso tempo, na próxima calçada super heróis sem distintivos constroem metrôs, lixeiros atletas à vista retiram nossas porcarias, mulheres de toda bronca acordam cedo, dão de mamar, fazem e desfazem sem descansar. E há os artistas operários do dia que vier que venha. À prestação alguma felicidade ondular.
São Paulo, 12 de março – 2006
Escrito por porque escrever é preciso às 17h22
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