Pobreza e Miséria
De volta a volta. Revi alguns queridos amigos, entre eles o meu caríssimo escritor sem livro, assim como eu e outros tantos, o Vicente. Ele sempre pede que eu exercite a crônica e, apesar de certas desconfianças de minha parte, tentarei não uma crônica, mas um ensaio dominical.
A notícia de capa do jornal foi que cresceu o número de pobres na Grande São Paulo, eu que nem sabia que estávamos às raias dos 18 milhões e alguns milhares, agora emplacamos os 7 milhões e meio de famílias na tênue linha da pobreza. O que significa dizer famílias com rendimento inferior a R$ 250,79, bem menor que o salário mínimo recentemente aprovado pelo governo federal. Calei-me com a notícia no peito, pensando nos habitantes que não configuram famílias e nem constam nos censos ou pesquisas do gênero. É a Roma decadente! Se fôssemos estimar a miséria na grande São Paulo, imaginem os números, e nem falo em lastimar, pois para isso nem temos tempo. Se parássemos para sentir e sofrer com as cenas miseráveis que encontramos diariamente nesta cidade, no centro e muito, mas muito mais na periferia, entraríamos em estado de depressão coletiva. Cá entre nós, rumamos para isso, a geração prozac e afins que o diga. Pra não falar na revolta, no ódio gerado, nas gerações e gerações abandonadas de humanidade. Isso porque São Paulo é um dos maiores centros econômicos do país, e aqui continua sendo o sonho de trabalho e dinheiro para milhares de brasileiros.
Lembro dos números ostentados pelas CPI's, inimagináveis milhões, bilhões, que poucos brasileiros visualizam. Não há dinheiro para implantar políticas educacionais, de habitação, saúde, saneamento, e prevenção a todo tipo de mazelas? Que me desculpe a escola de economia reinante no país, há de haver medidas baratas e eficazes. É uma questão de concentração, mais que vontade política ou a tal 'governança', trata-se de amor e dedicação também. Sem demagogias, falo como ser humano e humanista que sou - é preciso uma grande dose de amor, para além dos atrativos e corrupções do poder em si. É fato que ninguém conseguiu fazer com que os habitantes deste país fossem alfabetizados e contemplados como pessoas que merecem viver, na plena acepção da palavra.
Ontem à tarde conversava com uma amiga que vive em Barcelona e acaba de voltar de uma viagem turística a Cuba. Bem, não é fácil, para alguns de 'nós' soaria terrível, ela disse, parece uma grande favela, habitável, velha e bonita, sem violência nas ruas, com crianças bonitas e saudáveis indo à escola, tendo educação própria às capacidades e habilidades humanas, um povo saudável de maneira geral, judiado porque estudado e sem ter onde aplicar o Trabalho (diferente de emprego), consciente de si e de seus sonhos. Quase todos têm curso universitário, ela me conta, são inteligentes e 'educados', pode-se conversar sobre os mais variados assuntos nos mais diversos ambientes de Havana, onde ela esteve hospedada. Ficou espantada foi com certas contradições que pareceram absurdas, como, por exemplo, o rígido controle sobre a população para que não receba dinheiros escusos dos estrangeiros no país. Não podem hospedar estrangeiros em suas casas, não pode dar carona para estrangeiros se não for taxista, cosa y tal, e se o fizerem vão lá policiais ou representantes de bairro os denunciam, pois todos têm de declarar os ganhos e pagar devidamente os impostos. Tirar um por fora, seja como propina ou ajuda de quem tem mais, representa um crime configurado e deflagrado. Ela esteve enamorada de um cubano, como não poderia deixar de ser, ainda bem, e a toda hora eram parados por policiais que pensavam que ele estava 'tirando' dinheiro dela. E não porque o fizesse, se acaso estivesse a fazer, mas porque é um dinheiro sem declaração. Do ponto de vista econômico me parece compreensível controlar a entrada de divisas no país. Não há o 'progresso' que por 'aqui' alguns desfrutam, é certo, fast foods e produtos para loiras, morenas, negras ou ruivas, não há computadores, lan houses, laptops, Internet de banda larga 'democratizada', e as úteis facilidades na área da comunicação. Por outro lado, não há miséria, o que me deixa aliviada. Não há essa gritante desigualdade social com a qual convivemos, e adoecemos, e que tanto nos desumaniza e nos faz prisioneiros num mundo pretensamente de liberdades democráticas. Aqui basta poder, ter dinheiro, fazer lobbies, ter poder e poder. Estamos doentes, esquizofrênicos, ao sermos lançados na barbárie do capital. Pois não pode haver nada pior que a miséria, em todos os sentidos e com todos seus efeitos devastadores, bárbaros, sobre qualquer sociedade. A amiga me disse: uma coisa é verdade, eles são pobres e não são doentes, têm consciência de sua pobreza, falam sobre ela com toda propriedade, e sorriem com a boca cheia de dentes, entre outras belezas, e ainda sonham como muitos de 'nós' deixaram de fazer.